O ECO DO MANTO - A Língua Secreta que Corre no Meu Sangue

JO JONES122

 

Este texto não é apenas uma crónica, é uma herança. É um tributo sentido a todos aqueles que, nas feiras de outrora ou nos trilhos da sobrevivência, fizeram do comércio a sua vida. É uma homenagem aos meus antepassados, cujas raízes se fixaram em Penafiel vindas de Espanha, trazendo consigo a astúcia de quem precisava de negociar, de resistir e, muitas vezes, de sobreviver ao contrabando nas zonas raianas através de uma forma de comunicação que só os "nossos" entendiam.

Cresci a ouvir uma língua que não vinha nos livros, mas que pulsava no coração de Duas Igrejas, terra da minha avó materna. Naquela terra de gente rija, famosa pelos seus burros, pelas suas albardas e albardeiros, a minha família falava o" Manto"nas feiras de ano e na famosa feira de S. Martinho em Penafiel.

Não era um simples calão de feirantes, era um código de honra, um escudo de invisibilidade. O meu avô, marceneiro de mãos sábias, que moldava a madeira e o destino, e a minha avó, que entre linhas de costura e fazendas vendia a utilidade e o brio, moviam-se entre as bancas com uma destreza que ia muito além do pregão.

Em criança, eu era uma iniciada neste culto secreto. Falava o "Manto" com a naturalidade de quem brinca. Nas feiras, de mão dada com a minha avó, eu sentia o orgulho de pertencer a um grupo que "ninguém enganava". Se o aviso era "abeda alimes a piconeira"( está ali a polícia) , o corpo percebia antes da mente: a autoridade estava perto. Se a "rafa"(fome) apertava, sabíamos que era tempo de "suquir"(comer) . Se o dia era de fartura, os "cartos"(dinheiro) entravam no "gageiro"( carteira) . E quando o sol se punha, restava-nos o descanso do "sonar"(descansar, dormir, calar) .

Hoje, estas palavras parecem sussurros de um passado que teima em desvanecer. Cinquenta e dois anos passaram desde que a minha avó partiu, levando consigo parte desse dicionário vivo. Os meus tios, num mundo que exigia menos segredos, deixaram de praticar o código. E a dor mais profunda é olhar para a minha mãe, a fiel guardiã desta herança e vê-la hoje prisioneira de um Alzheimer que lhe apagou as palavras, mas que, estou certa, não lhe apagou o sentimento. Ela, que falava o "Manto" com a fluidez da alma, habita agora um silêncio onde estas expressões são relíquias submersas.

Por que é que escrevo isto hoje, quando as memórias decidiram bailar com algumas palavras deste "Manto" que só nós entendíamos?

Porque perder o "Manto" é perder alguma da nossa identidade, da nossa cultura popular. É deixar que se apague a história de um povo que, vindo de longe, fez desta terra o seu baluarte. O nosso património cultural não é feito apenas de granito ou monumentos, é feito do sopro das palavras que os nossos avós trocavam nas feiras e nos mercados para proteger a família e o pão.

Este artigo é um apelo a todos os que, como eu, recusam deixar que a nossa cultura seja esquecida no tempo. Somos os guardiões de uma memória que não pode morrer. Enquanto houver alguém que se lembre do que era ser um feirante, ou um negociante, os nossos antepassados continuarão vivos e algumas tradições nunca morrerão. Para além do Manto, havia outras gírias que eram faladas em diferentes locais do país.O Quadrazenho e do Minderico são alguns exemplos. Mas Portugal possui vários criptolectos (gírias secretas) que eram usados por grupos profissionais para proteger os seus negócios e comunicar longe dos ouvidos de "estranhos". Este texto é também uma pequena homenagem a todos aqueles que como os meus avós tiveram que comer "o lante que o zenha malhou". (o pão que o diabo amassou. )


M. Jones