SAMARITANA

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 Naquela cálida e incomparável noite africana, jogávamos bridge à entrada do bunker do capitão, de onde este raramente saía, entrincheirado na sua fortaleza de betão armado à prova de canhão sem recuo e morteiro.

Os parceiros, além do Cap. Jerónimo, eram os alferes da Companhia, Rijo, David, Raposo e eu próprio.

Inesperadamente, acorreu esbaforido o furriel Veiga, chefe das transmissões, abanando uma papeleta na mão, como se de um troféu se tratasse.

O capitão leu em voz alta a boa nova.

O navio Carvalho Araújo abicou a Bissau, onde aguardaria pelo nosso embarque dentro de uma semana rumo a Lisboa, cumprida finalmente a nossa comissão de dois anos na Guiné.

Corremos a dar a notícia aos soldados dos nossos respectivos grupos de combate e, à excepção do capitão que resolvera ficar sozinho no seu bunker, encaminhámo-nos para o Bar para comemorar em conjunto com os furriéis e sargentos.

A algazarra era enorme, o vinho, a cerveja e o whisky, escorregavam pelas gargantas, as vozes entaramelavam-se em cantorias alentejanas, fados de Lisboa, corridinhos do Algarve...

Eu próprio, acompanhado pela viola que alguém foi desencantar já não sei onde, enchi-me de brios e entoei um fado de Coimbra:

 

Samaritana, plebeia de Sicar

Alguém espreitando te viu Jesus beijar

De tarde quando foste encontrá-lo só

Morto de sede junto à fonte de Jacob

…......

E tu serena acolheste...

 

Foi nesta fase, cantada uma oitava acima, que a voz se me falhou, cheio de inveja de ser incapaz de imitar o meu amigo Berna que tão bem interpretava.

Porém, as bebedeiras eram já de tal ordem que ninguém me regateou um aplauso ruidoso e prolongado.

O Rijo, que tinha ido lá fora vomitar, tentava apagar o vomitado com o esguicho de urina que manobrava como uma mangueira, berrou cá para dentro:

- Vou mandar formar uma coluna auto, de faróis nos máximos e vamos todos percorrer a picada até Paiai Lemenei cantar um fado de despedida aos turras. Mas ninguém leva arma! Só cerveja!

Paiai Lemenei era uma base do PAIGC, a pouco mais de 20 Kms, donde sabíamos que irradiavam os ataques ao nosso aquartelamento.

Etilizados, os circunstantes aclamaram a ideia e aprestavam-se a carregar os Unimogs de grades de cerveja.

Ainda hoje não sei quem terá sido a mente mais sóbria que, caindo sem si, nos demoveu de levar por diante a luminosa ideia do Rijo.

 

Rui Felicio