“Engajamento”

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Vi a intervenção final de André Ventura, o deputado do Chega!, no parlamento, a intervenção que se faz naquele palanque que fica sobranceiro ao friso de membros do governo. (Posição convidativa a que um dia um deputado de barba rija e propensão verdadeiramente libertária baixe as calças e regue as alimárias. É só uma sugestão.)

 

Bom. O homem falou duro, um pouco atrapalhado na sintaxe, é certo, mas duro quanto baste. Lamento, porém, que me pareça insuficiente. O Ovo ria e mandava uns apartes com a mão na boca para os compadres à ilharga, fingindo depois, provavelmente quando se lembrava de que as tvs filmam continuamente, um módico de atenção. E uma expressão compungida, como a de um pai que ouve uma série de dislates de um filho acanalhado. E voltava ao riso sardónico. É assim, amigos, a política. Há um discurso dominante, que se finge aqui e ali um poucochinho dissonante, como as críticas do Bloco ou da santa preta da Guiné, ou as objecções em naipe de tenor do doutor Rio, para dar a ideia de uma pluralidade que é, na realidade, inexistente e toda uma pose. E há, quando há, um discurso de raiva, um discurso vindo de fora e que se exclui e é ao mesmo tempo excluído pela maioria. É o discurso de Ventura. O discurso de um meio Portugal que está farto, que se indigna até à apoplexia, e que se abstém por fim, vencido pelo cansaço.

 

Este discurso não vai, infelizmente, a lado nenhum. Os possessores da “verdade” não serão demovidos, muito menos convencidos. Passado um incómodo inicial, reduzem-no ao silêncio pela indiferença, primeiro, pela invectivação, depois.

 

Nada disto irá, em suma, mudar um centímetro à trajectória de velhacaria em que nos encontramos.

Imagem retirada da net

José Costa Pinto