Trapaças & Ficções – Cartas Abertas (“Tomo VI”)

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«Querida Raquel Tavares

Não interpretes mal o facto de estar eu a utilizar o vocábulo "querida".

Ainda não tive o privilégio de te conhecer pessoalmente, não sei se algum dia o terei. Provavelmente, não. Mas reservo-me uma ténue expectativa.

Sabes, pertenço à geração imediatamente anterior à tua… E, esta, é a minha forma simples e envergonhada de te manifestar carinho, consideração, reconhecimento, agradecimento…

[Agradecimento e reconhecimento pelo timbre que os deuses te deram, consideração e carinho pela coragem que manifestas]

Vergo-me, desde já: muito agradecido pela magnífica voz que tens e, assim o espero, que os deuses continuem a deixar que mantenhas! A tua voz será sempre a tua voz! Sabes, tens milhares de fãs anónimos que a adoram e, também de uma forma anónima, vão aguardar que a possas manter, para nos deliciares com o teu canto…

Sempre gostei muito da tua presença. Sempre admirei a forma como intervéns nas oportunidades que a comunicação (in)social te dá. O problema, se calhar, pode ter sido esse: teres dado, inadvertidamente, muito tempo à comunicação (in)social!

[E, como sabes, isso é arrojado]

Vi, por mero acaso, um resumo do “programa da Cristina” onde confidenciaste, para minha surpresa, que o mundo artístico onde vives, há tanto tempo, já não faz sentido para ti. E senti-te magoada. E senti-te desgostosa. E senti-te a necessitar de um desafio novo.

[Entendes-me?]

E melindrei-me, não deixando de me questionar: porquê? Porquê tanta tristeza quando se tem o privilégio de se ter um rosto e um sorriso tão bonitos, e uma voz tão assim inigualável? Porquê?

A finalidade desta curta missiva, não é imiscuir-me nas tuas decisões. Respeito-as, como pretendo que respeitem as minhas. E não é, como poderás imaginar, uma tentativa de engate! E, também, não tenho a tua visibilidade. Mas, quero que saibas, sou frontal. Como tu foste e acho que continuarás a ser. E defendo que é assim que tem de ser.

Posso convidar-te para jantarmos? Isso, mesmo assim um convite público!…

[Aceitas?]

Olha, até poderíamos aproveitar a oportunidade para combinarmos projectos partilhados: alguma da tua voz e alguma da minha escrita a reverterem a favor de instituições de caridade, sem fins lucrativos…

[O que achas?]

Sabe, contudo, que sou desempregado de longa duração! Há mais de um século!

[Apesar de ter apenas meio século e picos de vida]

Por isso, são reduzidas as minhas posses! Apenas posso proporcionar-te, no jantar que te proporcionarei, a partilha de uma ou duas bifanitas, de um ou dois copitos de gasosa misturada com carrascão - e nada de sobremesas! Pode ser?

Espero que aceites. E diz qualquer coisa. E recebe um abraço amigo deste teu incondicional fã…»

© Jorge Sá

(Jorge Sá não respeita o AO90)

Foto retirada da net