NÃO É IDEOLOGIA, É DIREITO

Durante anos, a igualdade foi mostrada como uma luta de mulheres, no entanto a verdadeira questão nunca foi sobre mulheres contra homens, mas sim sobre justiça entre os seres humanos. A sociedade só poderá avançar e crescer quando tivermos todos os mesmos direitos e os mesmos deveres, enquanto continuarmos a dividir oportunidades por género, estamos a limitar o nosso próprio desenvolvimento coletivo.
Na atualidade, fala-se muito sobre igualdade de género. Afirma-se que vivemos numa sociedade moderna, equilibrada e justa. Porém percebemos que ainda existem desequilíbrios significativos. Países como a Islândia destacam-se por políticas de licenças parentais partilhadas e medidas de igualdade salarial, sendo frequentemente apontados como referência mundial na redução das desigualdades. Ainda assim, mesmo nas sociedades mais avançadas, o caminho não está totalmente concluído.
A desigualdade salarial continua a ser uma realidade em vários países europeus. Em média, as mulheres precisam de trabalhar 15 meses para alcançar o equivalente ao salário anual de um homem. Em Portugal, dados recentes, fornecidos pela CITE (Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego), mostram diferenças remuneratórias significativas consoante o nível de escolaridade, revelando que o problema não está na qualificação, mas na estrutura.
Mas isto não é só uma questão feminina, é uma questão humana. Quando metade da população é desvalorizada, toda a sociedade perde talento, produtividade e equilíbrio.
Importa também referir que a mentalidade retrógrada, que ainda existe, em algumas pessoas, tem raízes estruturais. Todas estas pessoas foram educadas, maioritariamente por mulheres, dentro de modelos tradicionais, que também cresceram condicionadas por estereótipos. É um tema sensível, mas necessário: homem e mulher têm de conseguir mudar juntos. A transformação cultural exige diálogo, responsabilidade partilhada e consciência coletiva.
A história mostra-nos como os direitos nunca foram garantidos de forma fácil, na Suíça, por exemplo, as mulheres só iniciaram a luta pelo voto em 1971. A Suíça, foi um dos últimos países europeus a conceder sufrágio feminino, com o último cantão a implementar o voto local apenas em 1990.
Em Portugal, as mulheres são mais afetadas pela depressão do que os homens, com taxas de diagnóstico cerca de duas vezes superiores. Estudos, de acordo com o Eurostat, apontam para uma prevalência de depressão crónica de 16,4% nas mulheres. Esta realidade não pode ser analisada isoladamente, está ligada à pressão social, à desigualdade salarial e à acumulação de funções.
Ao longo das últimas décadas, o papel da mulher na sociedade transformou-se profundamente. As mulheres conquistaram o direito à educação, ao voto, à participação política, ao trabalho qualificado e ao acesso a cargos que, durante séculos, lhes estiveram proibidos. Hoje, estão presentes nas universidades em maior número, ocupam funções de liderança, integram áreas tradicionalmente masculinas e afirmam-se como vozes ativas na construção social, económica e cultural do país. No entanto, apesar destes avanços significativos, a igualdade plena continua por alcançar. Persistem desigualdades salariais, obstáculos no acesso aos cargos de topo, maior exposição à precariedade e, em alguns casos, uma sobrecarga desproporcional nas responsabilidades familiares. A evolução é inegável, mas o caminho para uma verdadeira igualdade de oportunidades e de reconhecimento ainda está longe de estar concluído.
A igualdade não implica superioridade de um género sobre o outro. Implica responsabilidade mútua. Direitos iguais exigem deveres iguais. O progresso social depende da participação plena de todos sem hierarquias impostas por estereótipos.
A mulher precisa de abertura para se afirmar, para sair do rótulo de fragilidade que durante séculos lhe foi atribuído. Mas o homem também precisa de liberdade para se libertar do estereótipo de força inabalável do “lobo solitário”. Ambos carregam expectativas sociais que limitam o seu potencial humano e podem iniciar processos de patologia mental complexos.
Embora mais de metade das pessoas se diga preocupada com desigualdades, sejam elas de género, inclusão, racismo, xenofobia ou discriminação, a preocupação, por si só, não basta. É necessário existir ação, mudança estrutural, compromisso coletivo e sobretudo defesa da justiça para homens e mulheres.
Trabalho e profissão não têm género. Competência não tem género. Liderança não tem género. A igualdade de género não é um favor. É um direito. E enquanto os números continuarem a demonstrar desigualdade, a luta continuará a ser necessária.
A verdadeira igualdade será alcançada quando deixarmos de falar em “luta das mulheres” e passarmos a falar em dignidade humana. Quando uma pessoa for escolhida pela sua competência e caráter, e não pelo seu género. Quando direitos e deveres forem universais.
Porque uma sociedade que limita metade de si mesma nunca poderá atingir o seu verdadeiro potencial. E só quando reconhecermos que somos, antes de tudo, pessoas, poderemos construir um futuro verdadeiramente justo.
«A mulher será realmente igual ao homem no dia em que uma mulher incompetente for nomeada para um cargo importante.» — Françoise Giroud
Iara Santos
27-02-2026
