O PERIGO DE DAR O MICROFONE AO INTERIOR

3 O PERIGO DE DAR O MICROFONE AO INTERIOR

 

As notícias hoje em dia são mais efémeras que a matéria de um exame que decorreu ontem de manhã, mas O Ponney recusa-se a deixar morrer a memória, até porque é um assunto quente na região de Coimbra.

Por isso decidimos fazer as contas e comparar o Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades deste ano com as celebrações passadas. Conclusão da nossa comissão de análise: dar voz a quem vive no interior é um desporto de altíssimo risco para a saúde política do regime.

Recuemos a 2024. O palco era Pedrógão Grande. O ex-Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa (na altura ainda longe de imaginar que o caso das gémeas e os privilégios familiares lhe iam azedar o final de mandato), cometeu o erro crasso de convidar Rui Rosinha, ex-bombeiro voluntário de Castanheira de Pera, para discursar.

Rui não esteve com meias medidas e espetou o dedo mesmo na ferida purulenta da nossa administração, acabando por denunciar as "medidas no papel" que foram prometidas e que, no terreno, valem zero.

A lição foi bem estudada pelo protocolo do Estado e no ano seguinte, para evitar mais lavagem de roupa suja em direto na televisão, as comemorações fugiram a sete pés para Lagos. Lá diz o ditado: “longe da vista... longe do fogo”.

Avançamos no tempo até à passada quarta-feira, 10 de Junho de 2026. O novo inquilino de Belém, António José Seguro, estreou-se nos discursos oficiais da data na Ilha Terceira, nos Açores.

Ali, rodeado pelo mar e pela pacatez insular, o atual Presidente da República desfez-se em elogios às autonomias regionais. No entanto, as palavras pomposas de Seguro ficam a anos-luz da realidade crua deixada por Rui Rosinha em 2024, quando nos lembrou a todos que "o caminho tem sido muito difícil, porque foi prometido muito e chegou muito pouco ao território".

Entretanto, a tragédia que assolou Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos prepara-se para completar nove anos na próxima quarta-feira, dia 17 de Junho, e o cenário continua igual, onde as populações continuam abandonadas e as vítimas continuam à espera de apoios substanciais que nunca passam da A1.

Rui Rosinha já tinha avisado que aquela tragédia expôs a vulnerabilidade de uma região esquecida e cheia de problemas estruturais que deveriam envergonhar qualquer político que já tenha tido uma caneta na mão para assinar um decreto. Mas os senhores doutores de Lisboa preferem ignorar. O ex-bombeiro foi claro nos exemplos práticos. Por exemplo: se ele precisar de levar o filho ao médico à noite, não tem uma única urgência aberta no concelho nem nos arredores.

O IC8 continua a ser uma autêntica roleta russa onde se somam acidentes mortais.

As comunicações?

São tão más que as "zonas sombra" sem rede de telemóvel — que tanto contribuíram para o caos e para a tragédia dos fogos — continuam exatamente iguais em 2026.

- Onde está o sinal?

Talvez pendente do visto de um diretor de departamento qualquer.

Mas não se apoquentem, porque neste 10 de Junho de 2026, António José Seguro resolveu filosofar sobre o assunto. Defendeu um "debate institucional sobre o território", sublinhou que Portugal permanece um país "excessivamente centralizado" e exigiu uma "justiça territorial" para aproximar as decisões de quem vive fora dos grandes centros urbanos.

Coisas bonitas para pôr numa tese de mestrado. O Chefe de Estado aproveitou ainda para rejeitar a ideia de que existem "portugueses puros", lembrando que somos todos uma mistura de quem veio de fora. O problema é que, para quem vive no interior profundo, a perceção é outra: há mesmo uma distinção clara entre os portugueses de primeira, que têm hospitais e estradas nas metrópoles, e os portugueses de segunda, que têm de rezar para não terem uma emergência médica depois do jantar.

Perante esta fantástica lógica presidencial de que não pode haver separação entre portugueses e de que é preciso descentralizar as festas, O Ponney deixa aqui uma sugestão patriótica para o Dia de Portugal de 2027: porque não fazemos as comemorações em Olivença?

Fica a dica. Relembramos os mais esquecidos de que, em 1801, através do Tratado de Badajoz (que Portugal denunciou logo em 1808), o território foi anexado por Espanha. Em 1817, Madrid até reconheceu a soberania portuguesa ao subscrever o Congresso de Viena de 1815, comprometendo-se a devolver a terra "o mais prontamente possível".

Passaram mais de duzentos anos e a devolução está ao mesmo ritmo do fardamento dos sapadores de Coimbra, ou seja em lista de espera.

Mas lá está, seguindo o belo discurso de Seguro de que somos todos iguais e misturados, celebrar o 10 de Junho de 2027 em Olivença era o passo lógico. Resta saber se o Presidente tem coragem de levar o microfone ou se prefere continuar a discursar onde o sinal de rede não falha.

JFA

Imagem criada por Daniel Henrique
12-06-2026