Da Conchada até à Baixa

Longe de serem únicos, estes são alguns dos registos que por aqui me propus fazer, no decorrer deste inverno turbulento, na sequência do qual me confinei aqui pela Conchada, como aconselhavam as medidas de protecção. Ainda assim, com mais ou menos chuva, a bica, o pão o minimercado e muitas vezes a farmácia, impunham uma frequência obrigatória em cada manhã. Se o negrume levantava, sempre arriscava uma ida a pé até à Baixa, espaço da minha identidade! Foi no decorrer destes percursos familiares que amiúde fui dando por mim a conversar e trocar impressões com quem nem conhecia - qual má-língua -, mas as situações que em certas alturas se me deparavam, sempre permitiam que metesse a foice em seara alheia. E eu não resistia à tentação de saber como era e como foi a respeito das pessoas, das estórias, dos episódios e até das circunstâncias que tinham a ver com casos específicos que por estes lados tivessem ocorrido.
Muitos dos meus interlocutores tinham informações, dizeres e mesmo relatos interessantes, ou porque se reportavam ao seu tempo, ou porque alguém lhos havia contado e, não raro, porque eles próprios teriam sido autores ou parceiros nesses acontecimentos. Então considerei que não obstante estar confinado a este território, ainda assim teria oportunidade de levar a cabo este modesto e despretensioso levantamento. Nele haviam de ficar registados os dados que dissessem e falassem da Conchada, por um lado, e da Baixa, parte dela evidentemente, por outro. Comecei pela zona envolvente do seu largo, a partir da curiosidade que me despertaram as alminhas de Nossa Senhora do Carmo, conforme testemunha o painel no seu interior. Visível é a sua cuidada conservação e manutenção, tal como mostra a lamparina sempre ali acesa, as flores, e algumas moedas para pagamento de promessas, em continuação de um culto afecto à religiosidade popular. Interessante a ligação deste nicho com a Ladeira do Carmo, que desce até à rua da Sofia, desde as escadas com o mesmo nome, implantadas a partir da rua Infante D. Henrique e delimitadas por aquele que foi o Grupo Recreativo 1º de Janeiro, das Patelas, fundado em 1915, como atestam os dois painéis de azulejos. E chamamos aquela rua para a nossa causa, pela razão de nela ter vivido o insigne fotógrafo de Coimbra, Varela Pècurto, hoje numa residência sénior, a quem enviamos muito saudar, salientando, do seu percurso, a meritória atribuição da medalha de ouro da cidade. Num mesmo contexto artístico, trazemos também Rui Nobre e António Costa. O primeiro, enquanto escultor de pedra e madeira, teve longos anos o seu atelier no centro do já referido largo da Conchada. O segundo é a figura afável e há muito aqui residente, o pintor naturalista que nos tem propiciado interesanates exposições dos seus trabalhos, nomeadamente quadros a óleo sobre tela de que se destacam as suas inconfundíveis Coimbras, e Paisagens.
E tivemos ainda eco da Republica Põe-te a Pau, dos anos sessenta, que ficava do outro lado das nossas Alminhas, sendo ainda recordados por antigos moradores os muitos académicos que por lá passaram e de entre eles o Mor, o então dr. Sirico, que tinha o levantamento das capoeiras cá do bairro e chegou a ser dux veteranorum!
E outros registos virão!
António Castelo Branco
