O que me fascina no Café Santa Cruz

O mítico ambiente das suas memórias? A luz filtrada pelos vitrais que reflectem, nos arcos da abóbada, o vislumbre de uma época que foi? O som tilintado de mais uma bica a ser servida sem que o cliente tenha de a pedir? A envolvência que sentimos perante um clássico cenário, no qual mergulhamos quando, sentados naquelas cadeiras de couro debruado com tachas douradas, frente às mesas de mármore branco? E, de entre estas, as que nele têm gravado, como se fora a cinzel, momentos perpetrados que aqui se tornaram validos.
Este é aquele palco vivo da nossa cidade, caloroso e abrangente, que não precisa de outros adornos para além dos que a História ali deixou e dos que, por paixão e entrega, têm sido assegurados por quem responde por eles. A atestá-lo a acção que tem sido implementada no decurso das múltiplas iniciativas que aqui têm ocorrido, numa abrangência sócio cultural do mais distinguido mérito.
Tal como este jornal noticiou, o passado dia 24 foi de reconhecimento e louvor para os que, ligados patrimonialmente a este Café Histórico, levaram a cabo a apresentação, em 2ª edição, do livro Encontros de Memórias do Café Santa Cruz, publicado em 2017 e que agora surge com a nova designação Memórias do Café Santa Cruz, acrescido de muitas outras curiosidades, informações e particularmente novas fotografias e gravuras de expressivo valor didáctico e informativo. Aquando da apresentação foi possível reter o testemunho de representantes ligados a instituições ali presentes, que colaboraram na consolidação dos projectos que hoje fazem fé e no trabalho que aqui tem sido desenvolvido. Por certo que esta iniciativa virá a ter eco no que toca à dinamização das mais-valias pretendidas, sempre com o intuito de atrair mais clientes para esta causa que é, grosso modo, a cultura dos cafés, de que o Santa Cruz é, sem dúvida, o percursor.
Se pararmos para reflectir nesta que é uma dinâmica empresarial sui generis, damos connosco a fazer a avaliação mais primorosa e que melhor alicerça o êxito deste rumo. Falo do elemento humano que ali subsiste, desde logo dos responsáveis pela gestão, e da forma como esta é diariamente sentida, por aqueles que, frente a uma bica e no decurso da leitura dos jornais, sempre observam e constatam o desenrolar ameno e dialogante dos que respondem por esta casa. É esse clima de à vontade e de franqueza que leva à aproximação dos clientes e vice-versa, que quase sempre acaba em laços de amizade. Verdadeiros elos de toda esta ligação são os colaboradores, alguns ali com longos anos de serviço. São pessoas às quais nos habituámos no dia-a-dia, e a quem já nem precisamos de recordar o que iremos tomar pois, consoante a hora de chegada, eles sabem bem o que vai ser. Isto sem desmerecer os recados, sempre entregues, que tantas vezes ficam aos seus cuidados, a par das ausências sentidas, de parte a parte, e trazidas à mesa quando circunstâncias ditam tais impedimentos. Efectivamente Coimbra ainda tem destas coisas e que Deus no las conserve!
António Castelo Branco
