OS MALEFÍCIOS DO COVID

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Primeiro Acto

(Homenagem a Anton Tchekhov, o Genial, sem o qual este texto nem sequer teria sido sonhado)

Corre o ano de 2024 e ainda estou vivo. Escapei à hecatombe de 2020, com algum juízo e muita lavagem de mãos. Estou a caminho do Teatro Topsius, onde me disseram ir ser proferida uma conferência sobre o vírus Covid-dezanove. Aqui vou eu, vivinho como a sardinha do alto, quando ainda havia sardinha no mar alto.

O conferencista será, segundo consta, um académico aposentado, de boa reputação e imaculados costumes. Além do mais, muito citado pelas Universidades de Kiev, Upsala e Cracóvia, com excepção da de Coimbra – que o acusa de fraco teórico – mas entusiasticamente referido pelos investigadores da Universidade Nova de Lisboa. Cheguei ao Teatro Topsius. Estamos no pino de Agosto e o calor transborda dos camarins para a teia, onde se encontra, por grosso, um quarteirão de machos velhos e meia dúzia de senhoras (no máximo) quase todas com abanicos na mão e bocejando desapiedadamente.

O proscénio apresenta uma longa mesa, lambuzada de verniz fosco, que já conheceu melhores dias e agora parece verniz sujo. Acrescentemos ainda uma cadeira majestática ao centro da mencionada mesa e, sobre ela, um jarro de água com o respectivo copo, mas tudo bastante descaído para a direita. O jarro apresenta-se convenientemente tapado por um naperon, rendado nas periferias.

Entra agora no palco, atrasado vinte minutos em relação à hora anunciada, o Senhor Arquitecto Vasconcellos e Punas, das ilustres famílias dos Vasconcellos e dos Punas, os primeiros muito monárquicos e deveras devotos, e os segundos manifestamente pulhostres e aldrabões. Eis a fala, muito grave e solene, do Senhor Arquitecto: — Pois muito boas tardes, minhas Senhoras e meus Senhores. A Comissão Organizadora do Ciclo "Conferências em torno do vírus" endereçou-me um irrecusável convite. E qual foi?

Duas ou três vozes se fizeram escutar, a partir da plateia: — Qual foi o diabo do convite? Mas para isto fazem-se convites? Se é o outro que vai falar, por que carga de água haveremos de escutar este rouxinol?

Ainda ecoou um risinho nervoso da menina Giraldes, que se ventilava com furor, empunhando um leque com um jardim chinês desenhado, que a avó Giraldes, ceifada pela peste de 2019, adquirira numa distante viagem a Macau.

O Senhor Arquitecto Vasconcellos fez de contas que não ouvira os apartes, nem reparara nos sentidos calores da menina Giraldes, e prosseguiu: — "Ora bem, ora muitíssimo bem, cabe-me a honra, a subida honra, melhor direi, de apresentar o nosso conferencista, esse poço de Saber que ostenta o nome de Filomeno Alcatruzes, que certamente nos irá trazer dos poços virginais … (a menina Giraldes deu nesta parte do discurso púnico um gritinho inconsolável) e o Punas continuou: "virginais e não contaminados pela turva ignorância, nos virá trazer os mananciais do esclarecimento científico acerca das causas, das devastações e das nefandas consequências por que passámos todos, no decurso do annus horribilis de 2020.

— Ânus quê? Qual ânus? Que é que ele disse? — soaram vozes desirmanadas, a partir da plateia.

O Senhor Arquitecto Vasconcellos e Punas fez outra vez de contas que não tinha ouvido nada.

Prosseguiu desta maneira: — Ora bem, dito isto, ora muitíssimo bem, só me cabe acrescentar que o nosso inexcedível conferencista apresenta uma bibliografia riquíssima, da ordem das muitas dezenas de livros já dados à estampa, da qual se destaca essa verdadeira bíblia da especialidade sobre tão controversa matéria, ou seja, a obra em quatro tomos Os malefícios da pandemia Covid 19, confiada aos prelos em Setembro do ano passado, sob a chancela da editora Plenilúnio, do Porto.

-- Da Porto? Do Porto, porquê? Mas por que razão é que este tal Dom Fulano não publicou em Lisboa? — interferiu agora uma voz cava, vinda do centro da plateia. Aqui, o Punas, com raízes na Invicta, perdeu uma boa parte da sua compostura. E retrucou: — Ora bem, ora muitíssimo bem, eu quero dizer daqui ao engraçadinho dos apartes que a editora Plenilúnio é talvez a primeira e mais conhecida editora do país. Encontra-se sediada no Porto.

Logo vibrou outra voz: — Mas que tenho eu com isso? Eu quero é ouvir o Alcatruzes e o resto é conversa fiada … 

O Punas, já quase a espumar, entendeu que deveria bater em retirada. Apelou à sua última energia combativa e rematou assim: — Ora bem, ora muitíssimo bem, eu já tinha sido previamente avisado que a distinção incontestável da nossa plateia poderia ser maculada.

— Macu quê? Este gajo fala em grego clássico ou em turco arcaico?

E o Punas, cada vez mais vermelhaço: — … poderia ser maculada por gente sem a menor decência e sem um pingo de qualidade intelectual. Por isso, passo já a palavra ao distinto investigador Filomeno Alcatruzes, que convoco, desde já, para este palco.

A mesma voz se fez ouvir, sempre em off:  — Mas quem convoca não é o seleccionador nacional?

Nesse preciso instante, o conferencista Alcatruzes, muito aprumado, irrompeu pelo palco, ocupou o seu lugar a meio da mesa e, sem se sentar, fitou longamente a assistência.

Amadeu Homem

(Publicado nas minhas "Crónicas da Peste Mansa")