ALEXANDRE HERCULANO E O PROPÓSITO DA MUNICIPALIDADE DE COIMBRA DE DEMOLIÇÃO DO MOSTEIRO DE SANTA CRUZ PARA FAZER UMA PRAÇA

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"Levaram-nos a Coimbra no anno de 1834 obrigações de serviço publico: ahi residiamos quando foi supprimido o mosteiro de Sancta-Cruz. Correu então voz publica de que houvera quem se lembrasse de pedir que este bello edificio fosse entregue á Municipalidade. Ninguem imaginará para que. Era para esta o mandar arrazar, e fazer uma praça. Não veio a lume este projecto nefando; mas não foi por mingoa de bons desejos. Uma praça no logar onde estivera Sancta-Cruz; uma praça calçada com os umbraes esculpidos do velho templo, com as lagens quebradas dos tumulos de D. Affonso Henriques, de D. Sancho 1.º, e de tantos varões illustres que alli repousam! ‒ Ha, acaso,  quem comprehenda a sublimidade deste pensamento:  quem avalie a infinita superioridade de um terreiro a um edificio-monumento, onde apenas ha historia, arte, poesia, religião? ‒ Confessamos que tão desmesurada força de ingenho não ha em nosso acanhado espirito, que possamos conceber a magestade e importancia de um terreiro do seculo decimo-nono, comparado com um edificio de seis seculos, que não tem a seu favor senão alguns primores de arte, e algumas recordações da historia."

 

Alexandre Herculano "O PANORAMA ‒ Jornal Litterario e Instructivo da Sociedade Propagadora de Conhecimentos Uteis", n.º 70, de 1 de setembro de 1838.

 

"O célebre Hogarh, que tão bem aproveitou para os seus deliciosos quadros as scenas de caricatura que offerece a vida civil; Hogarth, o pintor da «Eleição popular», do «Rabequista», da «Platea», do «Madraço», e até dos estragadores da sua formosa arte, perdeu muito em não viver hoje para vir dar uma volta pelo nosso Portugal: o seu mais ridiculo quadro seria o d'uma sessão de certas camaras municipais [De nenhumas em particular fallamos: homens de juizo ha-os em toda a parte; e quantos vereadores se acharão pelo reino, que lamentem, como nós, a ruina dos monumentos.] em que se decidisse a morte d'um velho monumento. Imaginemos cinco, ou seis, ou mais figurões, sentados á roda de uma banca, fallando sem juizo, sem decencia, e até sem grammatica, sobre os melhoramentos, e proveitos que devem resultar ao municipio da ruina de qualquer antigo edificio. Lá se alevanta um delles, gordo, vermelho, e calvo: é o Demosthenes do conciliabulo: aprendeu a soletrar pelas traducções do Contracto Social, e do Compadre-Matheus: um palacio, um muro, uma egreja d'eras remotas fazem-no estremecer de horror: em cada ameia de castello deserto lhe parece enxergar um cavalleiro cuberto d'armas ferrugentas, ouvir as badaladas da campa feudal ressoar sobre o arco da torre de menagem. Quizera que das instituições da meia-edade nem sequer restassem mudos documentos, porque o mesquinho da sua ignorancia crê que o feudalismo, absolutismo, monachismo, e mil «ismos», que elle não sabe o que são, mas que sabe serem cousas mui feias e carregadas, pódem voltar outra vez. Com as bocas semi-abertas os cidadãos vereadores o escutam: a eloquencia do orador é como a de Mirabeau: podéramos chamar-lhe o que o poeta Barthelemy chamou ao homem da grenha hirsuta, «furacão de carne e osso»: os animos commovem-se: os cabellos arripiam-se: a sentença contra o monumento vae ser fulminada: ha um instante de terrivel silencio: o presidente pede votos: «a terra!» diz o homem da calva: «a terra!» vão repetindo com voz solemne os outros membros do Sanhedrim. Então o secretario lavra o fatal accordam: por entre aquellas letras, logo amarellas á nascença, e escriptas com penna de perú, se alevanta no meio de cada palavra uma letra capital, em que as antecedentes e consequentes parece apoiarem-se. Acabou-se emfim a primorosa composição: o erudito secretario estende o papel ao respeitavel presidente, que, embebido no imtimo gozo de ter feito um bom serviço á patria, o recebe virado, e lhe lança no topo, com um ademan desdenhoso, a cruz do seu signal: passa aos outros juizes a tremenda escriptura: o calvo, que já soletra, vê o erro do presidente, mas não ousa offender o seu pundonor litterario: escreve em logar competente o proprio nome, e feito isto em menos de meia-hora, os outros dignos membros da municipalidade plantam debaixo da garatuja do Mirabeau villão um ondeante calvario. Torre, muro, paço, ou quer que és, cuja ruina foi decretada, para ti já não ha salvação! ‒ Que o trovador dos tempos passados componha o seu hymno de morte, ao som dos camartellos do progresso e da civilisação! Nos teus lanços desconjunctados, nos teus fundamentos revoltos, foi logo escripta, á ponta de picão e de alavanca, a palavra atrocissima, «a terra!» extraída do calvario municipal. O solo, sobre que pesavas havia seculos, desassombrado do teu vulto enorme, se converterá em um aprazivel soalheiro, e soalheiros são hoje objectos de primeira necessidade no abastado Portugal ......"

 

Alexandre Herculano  - "O PANORAMA ‒ Jornal Litterario e Instructivo da Sociedade Propagadora de Conhecimentos Uteis", n.º 94, de 16 de fevereiro de 1839.

 

In Mário Torres