História XII (recordando Me. Teresa): A avô que fora prostituta

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Tenho-o escrito demasiadas vezes: a minha saudosa e amada mãe ensinou-me, desde novo, a respeitar os outros; a compreender e a tolerar o meu semelhante; a partilhar o que possuía, donde sobressaia a comida; e, também, a dar a mão a quem mais precisava.

Assim o tentei fazer, vida fora. Umas vezes bem-sucedido, outras menos a contento do que queria…

Um colega de Liceu, o D. João III/Coimbra, aí pelo ano de 1968 (tinha apenas uns 12 anos, mas já consciente do que deveria realizar para fazer, dos mais sofredores, gente feliz), um dos filhos de um médico de renome e de apelido Trincão, contou-me que a mãe conhecia uma "mulher da vida" de uma das ruas da baixinha. Que ela precisava de emprego para deixar essa vida.

Frontalmente, porque o meu pai, por esse tempo, era o gerente das cantinas universitárias, abordei o meu progenitor sobre o que o colega me tivera contado. O meu pai, também homem de bem, não gostou da palavra que apliquei para falar da senhora, a da baixa. Mas não tinha outra.

E seria essa – pensei – que o poderia impressionar.

- “Pai, podias ajudar a sra. a vir para aqui trabalhar” – rematei.

- “Vou pensar no caso” – argumentou.

No dia a seguir, porque a minha mãe trabalhava por turnos, na telefónica, no edifício dos Correios, Telégrafos e Telefones, ao Mercado, em Coimbra, ajustei uma presença dela, em casa. Foi ao jantar – o meu pai não estava, pelo facto de as cantinas lhe consumirem o tempo.

- “Olha mãe, falei com o pai sobre isto (e contei-lhe). Podias, amanhã, quando ele estivesse em casa, ajudar-me e voltávamos a falar do assunto”.

Sem respirar:

-  “está descansado que o farei”.

 E aconteceu desse modo. Meu pai deixou-me o recado:

-“diz lá ao teu amigo para dizer a essa sra. para aparecer para se falar”.

Uns 5 dias depois, meu pai dava a boa nova:

-“a sra. foi contratada e vai ficar”.

Agarrei-me a ele, beijando-o e agradecendo-lhe. A minha mãe, no dia a seguir, agradeci por ela me ter ensinado a ser solidário.

Voltando à última história que vos trouxe sob o tema “A casa dos Avós” da Me. Teresa, quero dizer-vos que, quando um dia jantei nessa casa, acabei por validar que a avó era a tal senhora. Quando nos descobrimos, ela ficou radiante. Com as lágrimas nos olhos, referiu-me: “se não fosse a sua intervenção, ainda andava nessa vida”. Depois, mais solene: “o seu pai era um homem bom e que ajudava muita gente. Deixe-me contar-lhe uma história que guardei para sempre”. Retorqui: “faça o favor, porque quero conhecê-la”. E com palavras festivas: “todos/as éramos revistados à saída dos turnos de trabalho, por um homem ou por uma mulher. Nesse final de turno, que tinha sido nocturno, a sra. que me revistou detectou qualquer coisa errada. Mandou que tirasse do sítio, entre as cuecas e as partes baixas, 3 bifes que ali transportava (não quis aplicar outra palavra para não ser indelicada com a Madre)”. Curioso, perguntei: “E o que lhe aconteceu”.  Sem uma “branca” de tempo: “fui levada ao gabinete de seu pai que me questionou assim: “a sra. leva os bifes para quê?”… respondi: “para matar a fome aos meus dois filhos”.  E o sr. seu pai (dispenso o seu nome…) comentou: “não o faça dessa forma, sempre que existir fome em sua casa, agradeço que venha ter comigo que lhe farei chegar, pago por mim, o que for preciso”.

A Me. Teresa, que já conhecia o meu pai, não deixou escapar: “ainda temos pessoas que, e pela educação que tiveram, são solidárias e se preocupam com o seu semelhante”.  

A Me., em sintonia com a sra., lançou-me um repto: “António, convida o teu pai e, daqui a uns dias jantamos para nos revermos e ele voltar a escutar esta história, de vida, as que fazem as nossas vidas”. Umas três semanas mais tarde, juntámo-nos. Voltou a história a dar tom ao jantar, porque as gargalhadas foram gerais. Quem me dera usufruir da presença da Me. Teresa, de meu pai e da minha mãe, hoje.

Foi este episódio que me fez mais António, me tornou mais desperto para os problemas dos outros e que me foi fazendo mais Homem para a Vida.

António Barreiros