COIMBRA À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS

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Milhares de casas destruídas, pessoas mortas, empresas arruinadas é esta a nova realidade que as diversas depressões meteorológicas, em especial a tempestade Kristin, nos trouxeram ao Distrito de Coimbra.

Na passada madrugada de 28 de janeiro de 2026, ocorreu uma das mais violentas catástrofes meteorológicas das últimas décadas em Portugal. A força do vento e as chuvas torrenciais provocaram cheias rápidas, deslizamentos de terras e danos extensos em habitações, estabelecimentos comerciais e infraestruturas públicas. Registaram-se cortes prolongados de água e energia, estradas bloqueadas por árvores e destroços e bairros inteiros isolados durante horas críticas.

O impacto foi devastador. Casas inabitáveis, bens acumulados ao longo de uma vida foram perdidos e houve 13 vítimas mortais. Para além da destruição física, a tempestade deixou marcas emocionais profundas. O medo vivido durante a noite, a incerteza quanto à segurança de familiares e vizinhos e a perda súbita de estabilidade criaram um clima de ansiedade generalizada.  A ocorrência e exposição a eventos climáticos extremos aumenta o nível de ansiedade e pode levar a um transtorno de stress pós-traumático. O medo que a população passou é algo irreversível, algo que, para alguns, será impossível de esquecer, deixando marcas psicologicamente devastadoras.

«Uma catástrofe natural rompe a sensação básica de segurança. O mundo, que parecia previsível, torna-se ameaçador. Nas semanas seguintes não é incomum surgirem insónia, irritabilidade, estado de alerta constante, tristeza ou medo de que volte a acontecer. Estas reações não são, por si só, doença. São respostas humanas a situações que põem em risco a sua existência.» - disse, João Redondo, Psiquiatra, no artigo de opinião, publicado no “Diário as beiras”.

A nível económico, as consequências só começam agora a revelar a sua dimensão. Após as cheias, dezenas de empresas enfrentam prejuízos elevados devido à destruição de instalações, equipamentos e mercadorias. Muitas foram obrigadas a suspender a atividade por tempo indeterminado. Comércio local, restauração, turismo, indústria e agricultura estão entre os setores mais afetados, as dificuldades resultam não só da interrupção direta da atividade, mas também de infraestruturas danificadas, acessos cortados e da consequente paragem económica, provocando prejuízos elevados por lucros cessantes.

A NERC - Associação Empresarial da Região de Coimbra considera que a região atravessa uma verdadeira emergência económica. A associação tem apelado a uma intervenção rápida do Governo, defendendo que os mecanismos de apoio atualmente disponíveis devem ser ajustados à excecionalidade do momento. Programas como o PEPAC e outros instrumentos de apoio disponibilizados, continuam a exigir procedimentos semelhantes aos de candidaturas regulares, com prazos e exigências burocráticas que, segundo a NERC, não se coadunam com a urgência vivida pelas empresas.

Para a associação empresarial, é fundamental implementar processos simplificados, com avaliação contínua e prioritária dos pedidos, bem como critérios que tenham em conta a sobrevivência imediata das atividades económicas. A manutenção de procedimentos administrativos convencionais poderá desencadear um ciclo de falências em cadeia, agravando o desemprego e comprometendo a recuperação económica do Vale do Mondego e de toda a região.

Entretanto, o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social anunciou medidas extraordinárias para atenuar o impacto social. Entre elas, destaca-se a isenção parcial de 50% da Taxa Social Única (TSU) para as empresas que contratem trabalhadores em situação de desemprego diretamente causado pela tempestade, não para os desempregados de longa duração, durante um período de um ano. A medida pretende incentivar a criação de emprego e aliviar os encargos das entidades empregadoras num momento particularmente delicado.

Apesar disto, os empresários sublinham que o fator do tempo será decisivo. A rapidez na atribuição de apoios, a flexibilidade nos critérios e a capacidade de resposta das entidades públicas poderão determinar se a região consegue transformar esta tragédia num processo de reconstrução sustentável, ou se irá enfrentar uma crise prolongada, com consequências duradouras no tecido social e económico de Coimbra.

A irritação que se sente na região notou-se muito bem quando a Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Ana Abrunhosa, se insurgiu de forma verbalmente violenta contra o ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, quando este falou com os jornalistas sem ter reunido com os presidentes de Câmara da região de Coimbra. No contexto dos danos causados pelas últimas depressões meteorológicas.

 

Iara Santos

27-02-2026