O BARQUINHO VAI, A TARDINHA CAI…

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O Rui Pato, embora ainda rapazinho mais novo que muitos de nós, já era conhecido e admirado no meio coimbrão e até nos meios mais intelectualizados do País, por acompanhar à viola o respeitado Zeca Afonso.

Constituía para o nosso Bairro onde morava um motivo de orgulho que todos lhe dedicávamos.

Um dia resolvemos pedir-lhe que fosse tocar ao Greco, nossa tertúlia de eleição,

Acedeu, e combinámos uma tarde de sábado para lá ir com a sua viola.

A sala onde habitualmente nos entretinhamos ao fim de semana, a dançar e a conviver ao som de um velho gira-discos onde passávamos os êxitos mais em voga, desde Elvis Presley, Marino Marini, Adamo, Gianni Morandi e tantos outros, encheu-se até ao pátio exterior  da entrada, para ouvirmos o Rui Pato numa informalidade própria da nossa juventude.

A música brasileira de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Jobim, Chico Buarque, Maysa e tantos outros obtinha a nossa preferência.

Estava então a despontar a Bossa Nova, cujo ritmo invulgar aprendíamos a gostar e apreender.

Sentado numa modesta cadeira no meio da sala, rodeado por todos nós, começou a dedilhar o instrumento que até hoje toca de forma inigualável, obtendo acordes de que não estávamos à espera.

De facto, quem supunha que o Rui Pato se limitava aos acordes próprios das baladas de Zeca Afonso, assistiu espantado a um verdadeiro recital de bossa nova que nos ficou na memória para sempre.

É por isso que ainda hoje quando o vejo actuar ao vivo, me emociono e sigo atento a exímia execução de Rui Pato que não é um vulgar executante de acompanhamento de melodias.

A pandemia tem destas coisas. Vêm à memória recordações longínquas.

Rui Felicio