UM SEGREDO CHAMADO «QUINTA DAS BICAS»

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Se o leitor achava que os 1,18% de procura imobiliária em Coimbra eram uma esmola, espere até ver o que a nossa autarquia consegue fazer quando decide abrir os cordões à bolsa.

O complexo habitacional da Quinta das Bicas, em Taveiro, começou por ser uma simpática empreitada de conceção-construção de 268 fogos pelo preço base de 35,68 milhões de euros. Mas, como na engenharia conimbricense, atestado pela própria reitoria da UC que entende natural que um orçamento passe para mais do dobro, a inflação é uma inevitável para quem não entende nada de gestão.

Por isso o projeto «Quinta das Bicas» já vai nos 42 a 43 milhões de euros!
Os orçamentos para construção são como contas feitas por crianças que iniciam a aprender aritmética e onde o erro é perfeitamente normal.

Por isso se acrescentam uns meros mais 6 a 7 milhões de euros adicionais "por causa das flutuações de mercado", a que se somam 3,7 milhões para pagar os terrenos ao Montepio. No total, é dinheiro suficiente para fazer inveja ao próprio PRR!

A grande novidade tecnológica deste bairro é a "construção modular industrializada". Prometeram-nos que isto reduzia os tempos de execução e garantia padrões elevados de isolamento térmico e acústico (perfeito para os vizinhos não ouvirem os gritos quando virem a fatura final).

O financiamento vem da bazuca europeia e o prazo estrito do IHRU mandava entregar as chaves neste preciso mês de Junho de 2026.Contudo, como o modular é muito rápido no papel, mas Coimbra é uma cidade de ritmos muito próprios, a autarquia já admitiu publicamente que a meta do verão de 2026 foi empurrada "para além" do previsto.

Qual a desculpa oficial?

Em Fevereiro deste ano, descobriram que as redes públicas de água e saneamento no subsolo tinham "deficiências graves", obrigando a uma empreitada urgente e extra para reparar os canos.

Quem diria que para construir casas era preciso ter água a correr e esgotos a funcionar?

Pois foi um imprevisto técnico absolutamente imprevisível!

O mais delicioso nesta história de milhões é o absoluto silêncio ensurdecedor que vem da Praça do Comércio. Tratando-se do maior investimento de habitação municipal de sempre em Coimbra, seria de esperar que tanto o anterior executivo como a atual equipa da Presidente Ana Abrunhosa fizessem paradas e discursos frequentes. Mas não.

Há, apenas, um recato quase tímido sobre o destino dado ao erário público. Nos bastidores políticos, contudo, o telefone d'O Ponney não pára de tocar. Fontes próximas do processo sopraram à nossa redação que há fortes pressões para que este bairro social modular não fique "demasiado perto" de zonas residenciais onde o metro quadrado custa os olhos da cara.

Pelos vistos, a solidariedade e a habitação para famílias vulneráveis são conceitos lindíssimos... desde que fiquem bem longe da vista e do jardim dos senhores abastados da região. Até lá, a obra continua, os milhões continuam a rolar, e nós continuamos à espera para ver se o "modular" fica pronto antes do próximo milénio. Haja paciência e canos novos!

JAG
19-06-2026