Manuel Capela, guarda-Redes de Futebol
Foi, seguramente, um dos melhores guarda-redes que passaram pela Académica, e, verdade seja dita, a Académica teve atletas de excepção na defesa das suas balizas.
A primeira vez que ouvi falar dele foi na rádio, num jogo entre Portugal e a Inglaterra relatado pela emissora nacional. O guarda-redes, que nesse dia defendia a baliza de Portugal, era Azevedo, atleta do Sporting, idolatrado pelas pessoas que gostavam de futebol, tido por manter inexpugnavelmente a baliza que defendia, todavia, uns anos mais tarde, e no apogeu da sua forma, tremia por todos os lados sempre que Bentes, o “rato atómico” da Académica, lhe aparecia pela frente.
Pouco tempo após o jogo ter começado, Portugal já perdia por 4-0. Azevedo foi substituído e para a baliza entrou Capela, que ainda sofreu 6 golos, ou seja, Portugal perdeu com os “bifes” por 10 a zero, um escândalo nacional.
A Federação abriu um inquérito, e vários jogadores – senão todos, desculpe-se-me a fraca memória, tão longe vão os tempos – foram castigados: dentre eles, Azevedo com 6 meses de suspensão e Capela com 1 ano; ou seja, o guarda-redes, que entrou com a equipa da selecção já toda em frangalhos, apanhou o dobro da pena daquele que entrara no início com a equipa ainda acertadinha, ou melhor, acertadinha menos, que a equipa começou logo a jogar ao pé coxinho…
Já nessa altura os “grandes” eram “protegidos”…
Terminado o castigo, Capela ingressou na Académica….
Manuel Capela nasceu em Angeja em 9 de Maio de 1922, tendo sido um dos melhores guarda-redes portugueses durante a década de 40 (cinco vezes internacional pela Selecção).
Tendo iniciado a sua carreira em clubes da região (Beira Mar e Ovarense), foi no Clube Futebol "Os Belenenses" que começou por se destacar, sendo um dos baluartes na única vitória do Belenenses no campeonato da primeira divisão de 1945-46.
Capela (Guarda-redes), Vasco e Feliciano (os defesas) eram então conhecidos como as “Torres de Belém”, quer pela sua estatura (deveras impressionante a de Capela) quer pela quase inexpugnável muralha defensiva que formavam em campo.
Para Capela, o êxito ficara a dever-se às duas duras sessões de treino semanais, "uma de ginástica e outra de bola", que todos os jogadores "faziam com sempre renovado prazer na emoção das Salésias", antes ou depois de mais um dia de trabalho.
Pouco tempo depois apareceu na Académica de Coimbra, com o pretexto de prosseguir os seus estudos de Letras. Segundo Homero Serpa (jornalista de "A Bola") esta vontade não era nova e se não fosse um seu tio - um grande Belenense - a interceder em épocas anteriores, mais cedo teria deixado o Belenenses. A única contrapartida que o Belenense conseguiu foi a de que, caso Capela viesse a sair da Académica, seria apenas para o Belenenses (deixando Sporting, Benfica e Porto sem hipóteses).
Capela tornou-se uma lenda na Académica, chegando também a internacional (5 vezes).
Relembro, ainda, a força descomunal que tinha e deixou marca na retina dos adeptos. Era, por exemplo, mais ou menos vulgar pegar nos adversários que “caíam” no relvado para fazer passar o tempo, e levá-los nos braços para fora das quatro linhas, ou, sozinho, acabar com uma zaragata.
Capela, grande Capela!
Fontes: Canto Azul / Belenenses Ilustrado / "A Bola" (Adaptado)
