DELÍRIOS DE POLUIÇÃO

O pronto-a-vestir revolucionou a maneira como consumimos roupa, criada para um rápido consumo, na União Europeia, cada pessoa consome em média 19 kg de têxteis por ano, dos quais 12 kg são descartados, permitindo que as marcas possam lançar produtos de forma mais rápida e constante, despertando um desejo quase irresistível pela abundância de roupas baratas.
Comprar várias peças a preços acessíveis é tentador, mas, qual é o custo real por trás disto?
O mercado global do pronto-a-vestir está constantemente em expansão, impulsionado sobretudo pelos jovens por intermédio do e-commerce, avaliado em 241,1 bilhões de dólares, prevendo-se atingir 276,4 bilhões até 2027.
Mas o crescimento vem acompanhado de um impacto ambiental alarmante. O destino da roupa não vendida pelas grandes marcas é preocupante, na sua maioria é simplesmente destruída, esta prática demonstra que a sustentabilidade está longe de ser a prioridade para muitas marcas do pronto-a-vestir.
Esta preocupação levou a que a União Europeia, mude este cenário, com o regulamento Ecodesign for Sustainable Products (ESPR), que entrará em vigor em julho de 2026, as marcas do pronto-a-vestir estarão proibidas de destruir roupa, calçado e acessórios não vendidos. A lei obriga as empresas a encontrar alternativas para dar destino a estes produtos, promovendo uma economia circular mais consciente.
Especialistas apontam que é urgente abandonar os modelos tradicionais de produção e consumo. A revolução passa por repensar a forma como concebemos, fabricamos, utilizamos e descartamos os produtos, além de garantir um fornecimento seguro de matérias-primas. A reciclagem e a utilização de matérias-primas secundárias são estratégias essenciais para reduzir a dependência da União Europeia e diminuir os danos ambientais provocados pela moda rápida.
Dados revelam que a indústria do pronto-a-vestir é a segunda mais poluente do mundo e gera impactos ambientais em todas as etapas de produção, uso e descarte. Por exemplo: para produzir uma t-shirt de algodão são necessários cerca de 2700 litros de água, o que equivale ao consumo, por uma pessoa, por mais de dois anos.
A lavagem de roupas feitas com fibras sintéticas libertam microplásticos que acabam por chegar aos oceanos, sendo responsáveis por cerca de 35% de toda a poluição marinha.
Isto gera um forte impacto na vida marinha: peixes, moluscos e aves marinhas ingerem microplásticos que absorvem poluentes químicos presentes na água, como metais pesados e pesticidas, a ingestão causa obstruções no sistema digestivo, desnutrição e até a morte dos animais. Consequentemente, ao consumirmos peixe e marisco, podemos estar a ingerir estes microplásticos de forma inconsciente. Os efeitos a longo prazo no corpo humano ainda estão a ser estudados.
A cada segundo que passa um camião de lixo cheio de roupas é queimado ou despejado em aterros. As peças de tecidos sintéticos, podem levar de 100 a 400 anos para se decompor.
Além disso, os tecidos sintéticos libertam substâncias químicas no solo e nas águas subterrâneas à medida que se desfazem. A queima liberta dióxido de carbono e outras substâncias tóxicas para a atmosfera, contribuindo para o aquecimento global intensificando a poluição ambiental.
O pronto-a-vestir continua a seduzir pelo preço e pela variedade, mas o futuro pede responsabilidade: menos desperdício, mais sustentabilidade e escolhas conscientes.
Iara Santos
20-02-2026
