História de duas línguas: grego e latim

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Se nos transportarmos até à Jerusalém do princípio do primeiro milénio, aterraremos numa cidade que é parte do Império Romano. Que línguas se falariam lá? 

 

1. Jerusalém por volta do ano 30 d. C.

Quando Mel Gibson imaginou a condenação e execução de Cristo no filme A Paixão de 2006, tentou ser mais realista do que os tradicionais filmes bíblicos em que tantos judeus como romanos falam inglês… Pôs, assim, os judeus a conversar em aramaico e os romanos a conversar em latim.

 

Quanto ao aramaico, nada a dizer: era a língua da rua entre os judeus da época − uma língua que, diga-se, ainda hoje é falada em algumas comunidades do Médio Oriente, embora com as inevitáveis mudanças que 2000 anos impõem a qualquer língua. O hebraico era já uma língua essencialmente litúrgica − não se falava na rua da época de Cristo, mas voltou a ouvir-se na zona muito depois, quando foi ressuscitada como língua nacional de Israel. A recuperação de uma língua litúrgica é tão espantosa como se hoje voltássemos a recuperar o latim e o ensinássemos, desde a infância, aos nossos filhos, recuperando uma língua que já não se fala há milénios.

 

Mel Gibson tentou fazer isso mesmo em pequena escala: recuperar o latim e voltar a ouvi-lo como língua da rua. O esforço é louvável, mas esbarramos logo no problema da pronúncia: a pronúncia do filme é a do latim medieval, em que o <c> antes de <e> ou <i> se lia como em italiano. Durante o Império Romano, a leitura seria sempre /k/. O nome de Cícero, em latim, lia-se /’kikero/.

 

Mas há um problema mais grave: o mais provável é que os romanos daquela zona falassem grego, a língua mais importante do Mediterrâneo oriental dessa época. Mesmo que falassem latim, não seria a língua da rua em Jerusalém. (Aliás, mesmo em Itália, o latim ainda não era a língua de todo o território. Muitas inscrições em Pompeia estavam em osco, uma língua itálica diferente do latim.)

 

A língua do Império no Levante era o grego. Foi em grego que se desenvolveu uma tradição literária importantíssima, que o latim viria depois a imitar (com grande sucesso, diga-se). Esta tradição inclui as obras homéricas, mas também o Novo Testamento.

 

2. Línguas do Império

O grego e o latim são duas línguas indo-europeias entre muitas, mas a sua história tornou-as línguas importantes, línguas do Império, línguas da escrita.

 

O latim foi a língua do Ocidente mediterrânico e o grego a língua do Oriente mediterrânico − mas as fronteiras não são claras: houve colónias gregas na Península Ibérica e também era possível ouvir latim em Jerusalém (embora menos do que pensa Mel Gibson). Os Romanos reinventaram o alfabeto grego, imitaram o esplendor literário do grego, foram buscar muitas palavras gregas e ainda hoje ouvimos muito grego quando falamos português.

 

O latim e o grego eram as línguas com gramática, as línguas da literatura, de Homero a Horácio. Cada uma delas tinha um conjunto de funções e um prestígio um pouco diferente. O grego era a língua da epopeia, o latim era a língua do direito − mas também foi depois a língua da epopeia, numa tentativa de alçar o prestígio da língua espelhada, muito tempo depois, na maneira como Camões escreveu uma epopeia em português. A tradução latina da Bíblia tornou-se a versão oficial, o Novo Testamento foi escrito em grego…

 

Podia continuar por um capítulo inteiro, mas não vale a pena: todos sabemos que o latim e o grego são as grandes línguas da Antiguidade − são as línguas clássicas, com uma importância só rivalizada, em contextos religiosos, pelo hebraico. É difícil exagerar a forma como estas duas línguas ganharam um lugar especial entre as línguas da Europa, um lugar marcado pela importância do seu uso na escrita.

 

3. Línguas que sobreviveram

Depois da Antiguidade, a sorte de ambas as línguas parece ter sido muito diferente. Hoje já ninguém afirma ter o latim como língua materna − embora muitos continuem a estudá-lo −, enquanto o grego é língua falada por milhões, na Grécia e em Chipre. No entanto, se olharmos com atenção para o que aconteceu com as duas línguas, percebemos que o latim nunca chegou a morrer − mudou, sim, e mudou muito. Mas isso também aconteceu ao grego…

 

Note-se: há muitas línguas que morrem − e morrem numa determinada data. Que data é essa? Diria que é o dia em que morre o último falante − ou, talvez, seja melhor dizer que uma língua morre no dia em que morre o penúltimo falante, pois uma língua que não podemos usar para conversar com outra pessoa já não é bem uma língua. Não foi o caso do latim. O latim nunca morreu: continuou a ser usado no dia-a-dia, sem interrupção, acabando por se dividir em vários dialectos que, por sua vez, se tornaram a base de línguas com normas e formas escritas particulares.

 

Já o grego sobreviveu da mesma forma que o latim: foi mudando, transformando-se noutra coisa, como todas as línguas.

 

As diferenças entre o caso do latim e do grego são o facto de o grego não se ter dividido em várias línguas (embora, para sermos precisos, convenha referir que existem algumas variantes do grego que são estudadas como línguas separadas) e de darmos o mesmo nome à língua tal como era falada na época clássica e na actualidade.

 

No entanto, as diferenças entre o grego antigo e o grego moderno são comparáveis (não necessariamente iguais) às diferenças entre o latim e, por exemplo, o português.

 

É a comparar que percebemos aquilo que é comum e aquilo que é diferente no que estamos a estudar.

 

(Nota: o grego antigo não era homogéneo, claro está. Variava no espaço − e variava no tempo. O grego clássico de Péricles é diferente do grego do Novo Testamento − este último é denominado grego koiné e serviu como espécie de língua franca no Mediterrâneo oriental.)

 

4. História do latim

O latim estava associado a uma entidade política − o Império Romano − que, a certa altura, desaparece, pelo menos na forma mais reconhecível. A língua − na sua forma popular − continuou a ser falada na rua e a ser usada na escrita. A escrita, melhor ou pior, manteve a gramática e o léxico da época de ouro da literatura latina.

 

Já a língua da rua não ficou parada. O latim falado mudou ao longo dos séculos, assumindo diferentes formas em diferentes territórios, assumindo a forma de um continuum dialectal: a variação fazia-se gradualmente, sem fronteiras marcadas entre os vários dialectos do latim; todos compreendiam os vizinhos, mas os habitantes dos extremos dificilmente se compreenderiam; por outro lado, acidentes históricos e geográficos criaram fronteiras mais marcadas aqui e ali. Não terá sido muito diferente do que aconteceu com o proto-itálico, com o proto-indo-europeu e com todas as línguas que vieram antes dessas…

 

Com o tempo − e falamos de muitos séculos − algumas das variantes do latim começaram a individualizar-se e vários reinos e condados assumiram-nas como línguas próprias − estes dois processos alimentaram-se mutuamente. É verdade que as línguas neolatinas são bem diferentes do latim, mas nunca houve um momento em que se pudesse dizer: o latim morreu e nasceu o português, o castelhano, o catalão, o francês, o italiano, o romeno ou outra das línguas latinas.

 

A transformação do latim nas línguas neolatinas foi um processo contínuo − e também um processo complexo, com várias influências de línguas anteriores e línguas vizinhas, entre outros interessantes episódios de um enredo que só conhecemos parcialmente.

 

Da mesma forma, mesmo durante os séculos em que a língua teve o nome de latim e era parecida com a língua que conhecemos das gramáticas latinas, a sua gramática e o seu léxico nunca estiveram parados. O latim tinha uma norma escrita e oral, mas variava − no espaço e no tempo. O próprio latim já vinha de línguas anteriores, que não morreram: transformaram-se no latim…

 

Em paralelo à sua transformação nas línguas neolatinas, o latim, na escrita, manteve-se importante em muitos âmbitos − a começar pelo eclesiástico − onde ainda hoje é usado e aprendido. É, de facto, um caso extraordinário de sobrevivência linguística.

 

Continuamos a ter gramáticas, dicionários e uma imensa literatura em latim − se pensarmos que cada língua é um rio que percorre vales pouco iluminados e florestas obscuras até chegar ao que é hoje, o latim é um pedaço de rio iluminado por mil holofotes. Mas o rio vinha de trás e continuou…

 

(Sobre o funcionamento do latim, mas também sobre a sua História, temos a recente Nova Gramática do Latim, Quetzal, 2019, de Frederico Lourenço.)

 

5. História do grego

Já o grego passou pelo mesmo processo, mas sem a divisão em várias normas escritas. O grego clássico nunca deixou de ser estudado, pelo menos como forma de acesso à literatura da Antiguidade, mas o grego das ruas foi mudando, como seria de esperar, com tantos séculos de permeio e tanto que aconteceu, desde a existência por tantos séculos do Império Bizantino à integração dos territórios de língua grega no Império Otomano.

 

Nos séculos xix e xx, houve uma tentativa de aproximar a língua da sua versão clássica. Esse grego arcaizante chamava-se katharévussa, foi criado no século xix e chegou a ser adoptado como língua oficial da Grécia, até que o grego demótico, uma norma baseada no grego actual, foi declarado oficial nos anos 70 do século xx. As lutas entre as duas versões do grego foram terríveis. Chegou a haver mortos − e ainda hoje há quem lamente que o katharévussa já não seja oficial.

 

(Podemos encontrar um tratamento académico da questão no artigo de Theodossia Pavlidou, «Linguistic nationalism and European unity: The case of Greece.», incluído no livro A Language Policy for the European Community: Prospects and Quandaries, Mouton de Gruyter, 1991, editado por Florian Coulmas.)

 

6. Água em latim

Para olharmos para o percurso destas duas línguas de forma mais concreta, olhemos para uma palavra em particular: «água».

 

A nossa «água» vem do latim, onde tinha a forma «aqua». Do /k/ do latim, passámos ao /g/. A mudança foi um pouco mais profunda do que parece. O nosso /g/ começou a não interromper por completo o ar e tornou-se numa consoante fricatizada. Se reparar bem, o /g/ de «água» sai continuamente da nossa boca − a consoante deixou de fechar o fluxo do ar, como acontece com o /k/. Usando o Alfabeto Fonético Internacional, o /g/ da nossa água é realizado como [ɤ]. Desse som corrente, sem interrupções, talvez venha a impressão enganadora que eu tenho de que a palavra água é muito… aquática! «Enganadora», digo − que isto de tentar encontrar a realidade na própria forma das palavras é uma ilusão. Até o ladrar dos cães é diferente de língua para língua…

 

Apesar de tudo, nós pouco estragámos a «aqua» latina. É certo que alguns portugueses fazem uma troca ali dentro e transformam a «água» em «auga». Nada a assinalar: as palavras dão estas belas piruetas nas suas navegações pelos séculos fora. Aliás, na Galiza, a palavra também tem estas duas formas («água» e «auga»), mas, curiosamente, a forma adoptada pela norma oficial do galego é aquela que relegámos para o purgatório do português fora da norma: «auga» − sim, a forma popular da palavra em partes do nosso país, quando salta a fronteira, torna-se na palavra oficial.

 

Não acusemos, no entanto, aqueles que dizem «auga» de estragarem a bela palavra latina. Se eles estragaram, o que dizer dos catalães, que lá enfiaram uma letrita («aigua»)? O que dizer dos romenos, que a transformaram em «apă»? E, se podemos deixar descansada a palavra nas mãos dos italianos (pelo menos os que falam o toscano a que chamamos italiano), o que dizer dos franceses? O francês transformou o latim de forma mais profunda que outras línguas latinas. Não olhemos para as palavras escritas, que essas enganam bem, engalanadas como estão daquela ortografia pirotécnica.

 

Oiçamos com atenção os sons… Aí, encontramos uma língua que passou o latim pela trituradora. Pensemos na conjugação verbal, que na escrita ainda distingue as várias pessoas, mas na fala vai a meio caminho de deixar os verbos tão simples como os ingleses. Pensemos no velho mês de Agosto, que os franceses escrevem «août», mas lêem apenas «u». E pensemos na pobre «aqua» latina, que acabou transformada em «eau», três vogais que se lêem como um «ô». Quando referi os verbos franceses a caminho de ficarem tão simples como os ingleses, estava a pensar no presente do indicativo dos verbos regulares. A conjugação francesa ainda é bastante mais complexa do que a inglesa − ainda!… Ainda outra nota: os franceses também podem ler o belo mês de Agosto com um «t» final: «ut».

 

Vejamos a palavra numa selecção de línguas latinas:

AQVA

água − português

auga − galego

agua − castelhano

aigua − catalão

aiga − occitano

eau (ou melhor, /o/) − francês

acqua − italiano

jacqua − dálmata

apă − romeno

 

7.  Água grega

E o grego? O que fez à água?

 

O grego antigo tinha «ὕδωρ» («húdōr»), de origem indo-europeia. Esta palavra é, aliás, a origem de várias palavras portuguesas relacionadas com água, como «hidráulico»… No entanto, se perguntarmos a um grego de hoje qual é o nome do líquido transparente que está no mar ou sai das torneiras, o que ele irá dizer é «νερό» («neró»).

 

O que se passou? Donde apareceu este «neró»?

 

Durante muitos dos séculos que nos separam da Grécia Antiga, os gregos usaram a expressão «νεαρόν ὕδωρ» («nearón húdōr») para denominar a água doce. A palavra «nearón» é uma declinação de «nearós», que significa algo como «jovem». Ou seja, «água doce» seria «água nova» − e com os séculos a expressão foi deixando cair uma das palavras.

 

Qual? Curiosamente, a palavra que caiu nessa expressão foi «húdōr», ou seja, «água». O termo para doce passou a designar todo o tipo de água, doce ou não − um pouco como se hoje o nome português para o líquido precioso fosse «doce» e tivéssemos a expressão «doce salgado» em vez de «água salgada». Nada que nos fizesse torcer o nariz se tivesse sido esse o caminho percorrido pela água na nossa língua. A velha palavra clássica grega ainda hoje se encontra em textos muito formais, talvez uma reminiscência das guerras linguísticas do katharévussa.

 

As línguas têm dificuldade em ficar quietas. Já vimos porquê: a nossa própria biologia, sempre ligeiramente diferente de pessoa para pessoa, implica que a língua não seja aprendida de forma perfeita por cada falante; além disso, as condições de uso nunca são as mesmas; há ainda tendências em precário equilíbrio para pouparmos o esforço e melhorarmos a expressividade…

 

Haverá maneira, uma vez inventada a escrita, de parar uma língua? Não será impossível, mas o resultado talvez não seja o esperado. Aliás, o próprio latim ficou conservado durante muito tempo e ainda hoje é usado em certas situações e aprendido por muitas pessoas (infelizmente, cada vez menos). Há outras línguas que se mantiveram aparentemente paradas no tempo.

 

8.  O exemplo do árabe

O árabe é um caso curioso que junta o processo do latim e do grego.

 

O árabe moderno padrão, ensinado nas escolas nos países árabes, é uma espécie de katharévussa: uma versão arcaizante, conscientemente próxima do árabe clássico. O prestígio do árabe moderno padrão é tão grande que, mesmo entre os falantes, nem sempre há consciência da distância que separa este padrão do árabe realmente falado nas ruas. É possível ouvir alguns falantes árabes dizer que o árabe, ao contrário de outras línguas, não mudou ao longo dos séculos, mantendo-se mais puro do que outras línguas.

 

Ora, se na escrita e nas situações formais o árabe é uma língua única, na oralidade do dia-a-dia aproxima-se do latim: um marroquino, a falar na língua que fala em casa, perceberá bem um argelino, mas já terá muitas dificuldades em compreender um falante do árabe popular de Omã, por exemplo − tantas como um português terá em compreender um romeno, por exemplo.

 

Note-se que, ao contrário do caso do português e do romeno, os árabes aprendem uma língua comum na escola e, por isso, perante um falante de um árabe muito distante, usam o árabe moderno padrão, língua que raramente falam em casa. Tudo isto acontece de forma natural, por vezes sem consciência de haver uma mudança entre o árabe particular da sua terra e o árabe padrão.

 

Esta coexistência de duas línguas num mesmo território que são usadas em diferentes situações chama-se, tecnicamente, diglossia. É o que também acontece, por exemplo, na Suíça alemã, onde o alemão suíço é usado no dia-a-dia, mas o alemão padrão é usado na escrita e nas situações formais, havendo entre ambos uma distância considerável.

 

As gramáticas dos vários árabes − alguns chamar-lhes-ão «dialecto», enquanto outros não terão pejo em usar o termo «línguas» − são já muito distintas, havendo um certo continuum dialectal, mas também algumas formas com individualidade, o que nos permite falar do árabe marroquino, do árabe egípcio e por aí fora. Qualquer um destes árabes podia dar origem a um novo padrão, com outro nome, tal como o latim popular do Noroeste da Península Ibérica deu origem à nossa língua. Aliás, a forma do árabe falada numa ilha do Mediterrâneo, com fortes influências italianas, ganhou uma norma e um nome: falo do maltês, uma das línguas oficiais da União Europeia (para sermos mais precisos, o maltês descende do árabe da Sicília − uma observação que serve para aguçar o apetite para a História do árabe no Mediterrâneo).

 

O árabe moderno padrão, que une todos os países de língua árabe, permite a comunicação entre falantes de línguas orais muito distintas. A sua ligação tradicional ao árabe clássico dá-lhe uma aura sagrada − neste caso, literalmente sagrada, pois o árabe clássico é a língua em que está escrito o Alcorão. Perante a tradição religiosa e literária associada à língua escrita, é natural que muitos falantes olhem para as línguas orais, realmente faladas no dia-a-dia, como deturpações imperfeitas da língua árabe perfeita que encontram na escrita.

 

Ou seja, caem na tentação de associar a riqueza literária e cultural de determinada forma linguística às suas características intrínsecas, como se a gramática do árabe clássico − e do árabe padrão, por associação − fosse mais perfeita que as das línguas mais recentes.

 

9.  Línguas mais perfeitas?

Também nós, falantes das línguas latinas, caímos nesta tentação. Quando olhamos para o latim e para o grego antigo temos, por vezes, a sensação de serem duas línguas intrinsecamente especiais, ou seja, gramaticalmente mais perfeitas e belas do que tudo o que veio antes e tudo o que se seguiu.

 

Esta sensação estará associada ao facto de termos acesso a esses períodos da história das línguas apenas e só através da escrita − parecem-nos línguas mais buriladas, mais contidas, menos sujeitas aos erros e às malfeitorias que vemos à nossa volta. Mas teríamos a mesma sensação perante qualquer língua se dela restasse apenas a literatura e se essa literatura tivesse a importância que as obras em latim e em grego antigo têm para nós, com milénios de leituras, comentários e estudo em cima.

 

Note-se que estou longe de desvalorizar o latim e o grego antigo − digo mesmo: antes pelo contrário! O que digo é apenas isto: a importância destas línguas não tem que ver com as características gramaticais das mesmas, mas antes com a beleza e o peso do que fizemos com elas. Quando temos algum tipo de investimento emocional numa língua − ou por ser a nossa língua materna ou por ser uma língua que aprendemos com gosto −, é habitual considerarmos essa língua mais bela do que as outras. Desta ilusão não vem mal ao mundo, excepto quando a confundimos com dados objectivos. Ao longo da história, a ilusão de superioridade intrínseca de determinada língua levou muitos a considerar o francês como uma língua especialmente lógica, o alemão como mais adequado para a filosofia (por ser preciso), o inglês como uma língua lógica (a tecla da lógica é batida muitas vezes), o italiano como a mais bela das línguas e por aí fora.

 

Não digo que não haja uns quantos pormenores gramaticais deslumbrantes. Por exemplo, tanto o latim como o grego têm casos, que nos parecem uma maneira particularmente espartana de construir as frases. Para nós, falantes de línguas mais analíticas, o latim e o grego oferecem-nos uma desafiante matemática sintáctica. Confesso: também a mim os casos me intrigam − mas, numa óptica estritamente linguística, o latim e o grego antigo não são, neste ponto, especiais. Os casos existem em muitos idiomas − e há línguas, como o basco, com um maior número de casos.

 

Mesmo noutras tradições, estas ilusões de superioridade intrínseca de uma língua aparecem com facilidade, como descreve Gaston Dorren, no seu livro Babel: Around The World In Twenty Languages (Profile, 2018), no que toca ao tâmil. Da mesma forma, tendemos a considerar a nossa forma particular de falar a nossa língua como a mais perfeita, tentação praticamente irresistível se a forma que nos calhou em sorte estiver próxima da língua-padrão. Esta ilusão (entre outras) é bem desmontada no livro Language Myths (Penguin, 2000), escrito por vários linguistas profissionais e editado por Peter Trudgill e Laurie Bauer.

 

Voltando ao grego e ao latim: também devemos evitar considerar os significados das palavras em latim e em grego como mais genuínos do que os significados que as mesmas palavras − ou outras por elas − assumiram depois, na passagem para as línguas latinas da actualidade. Os linguistas têm mesmo um nome para esta sensação de que esses significados eram, de alguma forma, melhores do que os nossos novos significados: estamos perante a falácia etimológica, a crença de que o significado verdadeiro das palavras está nas formas mais antigas.

 

Temos de admitir: é difícil resistir à tentação de ver os significados mais recentes como deturpações − mas lembremo-nos de que, no latim como em todas as línguas, muitas palavras provêm de formas mais antigas, com alterações mais ou menos radicais de significado. Afinal, até a palavra latina para «filho» veio da palavra para «sugador» no proto-indo-europeu. A avaliar pela amostra do que aconteceu entre o indo-europeu e o latim, até fomos meiguinhos com o que fizemos às palavras dos Romanos.

 

Nada disto deve ser interpretado como uma forma de diminuir a importância do latim na história da nossa língua. Não só a língua nos dá acesso a uma literatura e a uma cultura que são bases da nossa cultura (e o mesmo se poderá dizer do grego, de forma diferente), como, linguisticamente, constitui uma fase fulcral do desenvolvimento da língua, que está disponível na escrita (ao contrário de outras fases), permitindo-nos compreender a história de muitas das palavras e dos conceitos que hoje usamos. O próprio reconhecimento das mudanças de forma e de significado de algumas palavras do latim até hoje só é possível se conhecermos a língua. Em suma: este capítulo é uma homenagem ao latim, o nome de uma fase riquíssima da nossa língua.

 

10. Erros de latim (ou as sementes das línguas)

Volto à pergunta: será possível manter uma língua parada durante séculos? Se uma língua for convenientemente ensinada nas escolas, será possível cristalizá-la numa forma estável, tanto na escrita como na oralidade?

 

A mesma pergunta de outra maneira: seria possível que falássemos ainda hoje o mesmo latim dos Romanos se o Império Romano tivesse sobrevivido (e tivesse boas escolas)?

 

A resposta só pode ser não.

 

A gramática da nossa língua materna, por mais arrumações e acertos que se façam, não é aprendida, nos seus aspectos fundamentais, na escola − na escola aprendem-se os registos mais formais e a escrita. Mesmo imaginando um sistema escolar perfeito, onde toda a população aprenderia a escrever sem escolhos, seria praticamente impossível travar a mudança linguística.

 

Mesmo que o Império Romano não tivesse acabado, o latim que hoje falaríamos seria muito diferente do latim clássico − tal como o árabe de hoje não é a língua do tempo de Maomé, nem o grego moderno é o grego de Péricles. Talvez tivéssemos um latim da escrita ou das situações formais e outro latim (ou vários latins) na boca dos falantes − no fundo, a mesma situação do árabe de hoje.

 

Afinal, mesmo quando ainda só se escrevia em latim e esta era a língua que todos diziam falar, já tínhamos várias formas da língua: a língua da escrita não era a mesma que a da oralidade. As habituais queixas pela forma como se fala hoje em dia são especialmente reveladoras. O manuscrito Appendix Probi é uma lista de palavras erradas criada numa época incerta, mas que terá sido ou nos últimos tempos do Império ou nos primeiros séculos depois da queda. O certo é que vemos muitos erros de pronúncia como verdadeiras sementes das nossas palavras actuais, nas várias línguas latinas.

 

Por exemplo, o autor aconselha a que se diga «persica» e não «pessica». Esta última palavra é a origem do nosso «pêssego». Também «noscum» («connosco») era a forma errada de «nobiscum» (nós-com, ou seja, «com nós»). O certo é que «noscum» deu o nosso «nosco» − a palavra queria dizer «com nós», mas como o «com» estava já muito diluído, os falantes de português adicionaram um «com» no início: «connosco». Se formos ao latim, «connosco» significa «com nós com». A verdade é que os falantes, quando aprendem a língua, não aprendem a história de cada palavra − usam-nas e pronto. Assim, o que se desvanece num ponto é acrescentado noutro.

 

As listas de erros habituais de todas as épocas são muito interessantes para os linguistas futuros pois um erro, para estar na lista, deverá ser já tão habitual que dificilmente uma lista o irá corrigir; desta forma, são prenúncios de formas que se tornarão, facilmente, parte da norma escrita décadas ou séculos depois.

 

O Império Romano acabou, é verdade. A sua língua, que já fora a língua dos agricultores do Lácio, continuou nos lábios dos falantes e, longe de morrer, fez o que fazem todas as línguas vivas: mudou ao longo dos séculos, até chegar às nossas bocas. Pelo caminho, várias formas que a língua foi assumindo ganharam novos nomes e foram alçadas à categoria de línguas com gramática e com prestígio. Entre elas, o português...

Marco Neves

Em Certas Palavras 

 

Nota: Baseado num capítulo do livro História do Português desde o Big Bang