Mamar em sete mães

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 É sabido que os muitos enguiços que ainda hoje por aqui inquietam as pessoas nunca tiveram uma só maneira de serem interpretados e respondidos, sendo apontadas as mais diversas soluções para neles intervir. Com este pensamento lembramos o pão de sete masseiras e o sal de sete salgadeiras que era dado aos que apresentavam aspecto de augados, sem esquecer a primitiva esfragação na barriga dos mais novos, com toucinho de dois invernos passados, não se podendo lavar durante uma semana. Acontecia muitas vezes que crianças ainda de leite definhavam a olhos vistos, evidenciando, umas sinais de pouca vitalidade e outras, de grande choro e agitação, levando as benzedeiras a dizer que estavam também augadas.

Nestes casos, a primeira coisa a fazer era arranjar padrinhos que, se preciso fosse, enfrentavam o diabo e levá-los ao baptismo. Se ainda assim a situação se mantivesse, a bruxa mandava que se procurassem sete mães que estivessem a amamentar e se pusessem aqueles inocentes ao peito de cada uma. Não se pense, no entanto, que só para os males das pessoas havia alternativas, pois elas também existiam sobretudo para os animais de trabalho, nomeadamente para os bois, que tantas vezes eram acometidos de fastio e nem sempre as côdeas de broa ensopadas em vinagre e sal, que lhes eram metidas à força pela boca abaixo, sortiam efeito.

E lá vinha então a tia Rodriga dos Ámenes desvirar uma perneira das calças de um homem e colocá-la frente à manjedoura, enquanto mandava apanhar nove folhas de couve em aidos diferentes e tirar água noutros tantos poços que, depois, uma mulher da casa que não estivesse menstruada, dava aos infezados animais. Todas estas situações tiveram um cunho rotineiro aqui pela Gândara, pois tratava-se de encontrar respostas para os males que azaravam as vidas de cada um. E é neste pressuposto que ainda se mantêm por aqui bem vivas as mais diversas práticas conduzidas por bruxas, por bruxas e por bruxos, que toda a gente sabe onde moram e o que fazem, muito especialmente quando são mulheres desavindas com os maridos ou com os companheiros e procuram que eles se desliguem das amantes e do demais gado fraco com quem se perdem.

Outras vezes, são as próprias amantes quem tal faz, com o intuito deles deixarem as casas. Os meios usados por aquela gente feiticeira são tantos e tão variados, que por si só dariam uma narrativa nunca concluída, perante as múltiplas soluções que incutem a quem a procura, sendo o mar um dos locais mais escolhidos para concretizar tais práticas, cujos vestígios são perfeitamente visíveis e reconhecidos ao outro dia, no areal onde ocorreram as marés. Um dado  sabido por todos é que, sem fotografias nada se faz. Daí elas serem imprescindíveis para a bruxa fazer as rezas e as esconjuras, rogar as maldições e as pragas, deitar as cartas, chamar os espíritos que estão por detrás das danações e descer às profundezas do inferno, tudo com as imagens dos visados na mão que, na maior parte das vezes, a nossa gente já obtém, recorrendo à digitalização. Um bruxedo dos tempos de hoje?!   

                                                                                                                                                                                                                                          António Castelo Branco