VERGONHA, VERGONHA… DOS SEM VERGONHAS

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O Papa envergonhou-se.  Francisco repetiu, algumas vezes, a palavra Vergonha. Tudo por causa da pedofilia cometida por padres e outros servidores da Igreja, desta feita, em França, durante os últimos 70 anos, o que poderá atirar um número catastrófico – 330 mil – para o livro dos abusados.

Já havia relatos, de cenas iguais, nos USA, no Canadá, na Austrália, na Alemanha e por aí fora.

Os servidores da Igreja, a de Cristo, a Católica, principalmente sacerdotes, puseram a mão onde não eram chamados. Mas, e sem os isentar das suas responsabilidades – mais acrescidas do que outros de nós, porque representam uma moral, uma doutrina e uma religião que prega respeito pelo outro, misericórdia para os que a merecem e a defesa da dignidade da pessoa – quero reflectir que a própria Igreja é culpada do que aconteceu nos últimos anos, para não dizer séculos.

Ao proibir, primeiro, nos Seminários, o tempo da formação dos futuros padres, que se fale de sexo, desvirtuando o sentido da criatura humana criada por Deus, que está dotada de sexo, seja homem ou mulher, a Igreja castra e fustiga os que a vão servir, criando-lhes o maior interesse para perceber e descobrir todo esse “mistério”. Por outro lado, ao proibir o casamento dos padres e das freiras – não me revejo na palavra que dá nota do facto de se eles ou elas tivessem esposa ou marido não poderiam ter uma vida de entrega à Igreja e a Deus (uma falsa questão e não só…) – a Igreja coarcta a possibilidade de reprodução e, também, a necessidade sexual que, e para a estabilidade emocional, sentimental, psíquica e psicológica de qualquer ser humano, com raríssimas excepções, é fundamental.

Portanto, e ao longo dos últimos cinco séculos, pelo menos, a Igreja não teve a lucidez bastante para deixar que os seus representantes, mormente Bispos e Padres, tivessem a liberdade de se casar. As Igrejas estão cheias de casos de padres que têm amigas e amigos. Aliás, outra coisa não seria de esperar, porque se trata de homens, como outros, mas a quem se exigem mais responsabilidades pelos cargos que exercem.

A Igreja é vítima dela própria, porque não percebeu a essência e toda a orgânica física e mental do homem. A Igreja, a que deixou casar os Padres até uma certa altura, negando-o até hoje, num retrocesso que ora se manifesta de consequências trágicas, uma Instituição mais do que desumana.

O homem, este, aquele, aqueloutro e tantos mais, são pessoas de apetites, de vontades e de fantasias. Qualquer homem se não tiver essas dimensões ou é Santo ou tem pancada… Diz o povo e bem: “o fruto proibido é o mais apetecido”.

Tomara que os Seminários mostrem as realidades, isto é, apresentem a vida, em todas as suas dimensões, mesmo as que partem corações, moam consciências, espatifem a serenidade de milhares de pessoas e possam destruir almas, as desavindas, as mais beatas ou as menos dadas a entregarem-se aos sacrifícios impostos pela Igreja, por um ou outro dos seus Sacramentos.

Tem razão o nosso Papa Francisco ao exclamar Vergonha pelos actos dos seus. Os sem vergonhas, por lhes terem tirado o “brinquedo” do sexo… deixaram-se levar pelo pecado de o praticarem de qualquer maneira, sem atender se eram crianças, menores ou jovens. Poderiam e podem fazê-lo, mas nunca na inexistência de respeito pelos/as mais pequenitos/as pela simples razão que a sua candura não atinge a dimensão dos vergonhosos que, e dentro das sacristias, salas de catequese e de Instituições de apoio a menores, de forma vergonhosa metem as mãos onde não foram chamados, o sexo.

Os servidores da Igreja devem saber enfrentar o sexo. Não como um sacrilégio, antes como uma “bênção” que nos foi dada para nos fazermos felizes. Se a Igreja tratar o tema de forma clara, mais linear e aberta, estou certo que este actual panorama grave não se voltará a repetir. A evolução do homem merece ser entendida e seguida por todos nós, pelas Entidades e pelas Igrejas… Vergonha é não se perceber isso e, mais propriamente, o Homem, no seu todo, no geral… e nas suas necessidades. À Igreja Católica nada, mesmo nada, lhe pode valer, nem rezas nem flagelações…se não se reencontrar na grandeza, nas fragilidades e na dimensão total do Homem… Haja Deus para mudar uma das maiores incongruências da Igreja…

António Barreiros

Foto retirada da net