AS DESCULPAS TONTAS EXIGIDAS PELOS TONTOS

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Se os diversos países actualmente existentes tivessem de proferir confissões de arrependimento e "mea culpa", muito depois de supostas culpas cometidas em remotos passados, o mundo entraria todo no regime das carpideiras permanentes e não faria outra coisa mais do que andar a apresentar desculpas e a bater com as mãos no peito.

Vem isto a propósito dos que defendem que Portugal terá de fazer o seu "acto de contrição" por ter sido colonialista. Pensam uns tantos que Portugal terá de apresentar desculpas e de se arrepender.

Iremos, portanto, muito rapidamente, amplificar e generalizar o raciocínio. A vizinha Espanha deve apresentar desculpas a Portugal, pois roubou Olivença e ainda não a devolveu. Portugal deve apresentar desculpas a Espanha, por ter morto o MIguel de Vasconcelos em 1640. A França deve desculpas a Portugal e Espanha, pelas malfeitorias das invasões do Junot. do Soult e do Massena. Essa mesma França deve desculpas a toda a Europa, porque Napoleão irrompeu por todos os sítios, quando construiu o seu império, com base em sucessivas invasões. A Alemanha deve retratar-se continuamente perante toda a Europa pelas chacinas crudelíssimas levadas a cabo pelos exércitos de Hitler. Florença deve desculpar-se perante Veneza, por tudo o que foi feito de maldoso pelas cidades-estado do Renascimento. A Macedónia tem de retratar-se perante todos os países que vão desde ela própria às margens do Indo e às paragens da Índia, pois teve a responsabilidade inerente às conquistas de Alexandre Magno, o discípulo de Aristóteles. Cuba desculpar-se-á perante todos os fumadores, por tê-los posto a fumar e a contrair formas cancerígenas devido ao seu tabaco. A Rússia terá de se arrepender perante a Ucrânia, uma vez que Estaline matou à fome quase toda a sua população.

Estes exemplos poderiam multiplicar-se por mil se houvesse tempo e pachorra para enumerar o sudário das safadezas que os humanos praticaram, em todos os tempos e lugares, uns em relação aos outros.

Por tal facto, eu não irei pedir desculpas a ninguém por ter nascido em Portugal e pelo facto do meu país ter tido a história que teve. Também não irei exigir que todos os países que ofenderam e violentaram Portugal, ao longo dos tempos, andem sempre a retratar-se perante nós. Era bom que a vizinha Espanha pagasse o descarado roubo de Olivença, caso não a queira devolver. Mas, enfim, não rasgarei vestes por tal facto.

O mais aconselhável em tais casos, não é preconizar que se arrasem a Torre de Belém e os Jerónimos. O que é mais razoável, aqui e em toda a parte, é que os seres humanos se vão tornando melhores - mas sem a paranóia inerente à fábula do lobo e do cordeiro (“se não foste tu, foi o teu avô ou o teu bisavô"). Haja um pingo de bom-senso. 

Amadeu Homem