Conta a vontade de quem canta Ainda ontem

Herois-do-mar.pngMiguel-Esteves-Cardoso2.png

 D'Santiago tem razão: temos de dar uma volta ao hino nacional.

Todos sabemos quais são as partes do hino que funcionam. que nos fazem arrepiar, e as partes que são ridículas e que soam a século XIX.

Dino D'Santiago tem uma extraordinária sensibilidade lírica c musical, mas falou do hino como quem quer discuti-lo e melhorá-lo, e não substituí-lo ou eliminá-lo.

É essa generosidade e essa inteligência que devemos respeitar. discutindo publicamente o que o hino tem de bom e de menos bom, para poder torná-lo mais bonito. Seria bonito ver um pais inteiro a adaptar a letra de Henrique Lopes de Mendonça ãs sensibilidades dos portugueses de agora.

Não é preciso conhecer as circunstâncias da letra - a indignação perante a traição do nosso mais velho aliado - para achar que é anacronicamente bélica.

Dino D'Santiago mencionou o "às armas, às armas" e o "contra os canhões, marchar" e é assim que se deveria proceder, discutindo e debatendo palavra a palavra.

Felizmente a música do hino. de Alfredo Keil, é muito bonita - ou estamos tão

habituados a ela, ou comove-nos tanto ouvi-la, que vai dar ao mesmo. Mas a letra

também é boa e há partes em que combina muito bem com a música - por exemplo, no “sobre a terra. sobre o mar",

Também não prescindo, nem que fosse só para saudar a selecção, do "que “há-de

guiar-te à vitória".

Acontece que "às armas, à. armas" entra bem na música, pelo que a alteração deve

ser subtil. Porque não “às almas às almas"? Em vez de "contra os canhões", porque não "contra os barões"? É pena não poder ser "contra os cabrões", mas está bem.

E em vez de "marchar. marchar" poderia ser "cantar, cantar", porque é para isso que serve um hino.

A revisão do hino é para se ir revendo e discutindo c sondando: é assim que se mantém uma conversa nacional.

A conversa é um bem em si. Mesmo que o hino fique na mesma.

Miguel Esteves Cardoso