O INTERIOR CADA VEZ MAIS ESQUECIDO

4 O INTERIOR CADA VEZ MAIS ESQUECIDO1

 

O encerramento de infraestruturas e serviços públicos no interior de Portugal tem sido um fenómeno contínuo nas últimas décadas, motivado pelo despovoamento e por reformas administrativas. Embora o pico de encerramentos tenha ocorrido entre 2011 e 2015 (período da Troika), a tendência de perda de proximidade manteve-se nos últimos 10 anos (2016-2026).

A falta de infraestruturas afastam os investimentos e, também por consequência, a falta de população. Como um círculo vicioso esta situação, também, vai levar a que se invista cada vez menos no interior de Portugal que apenas é lembrado em situações de catástrofes, como as tempestades e os incêndios.

A falta de infraestruturas no interior, em diversas áreas, acaba por fragilidades grandes devido às alterações climáticas. Não havendo população não há coesão que ajudam a segurar as consequências das catástrofes.

As áreas mais afetadas como a educação onde o fecho de escolas do 1.º Ciclo do Ensino Básico é o indicador mais visível. A política de concentração em "Centros Escolares" levou ao encerramento de milhares de pequenas escolas em aldeias do interior. Os casos de maior impacto são visíveis nos distritos como Viseu, Vila Real, Bragança e Guarda que foram os mais afetados.
Embora o ritmo de encerramento de infraestruturas tenha abrandado face à década anterior, o fecho continua a ocorrer sempre que o número de alunos é inferior ao rácio legal (geralmente menos de 21 alunos).

Nestas condições dificilmente se consegue um equilíbrio populacional, o que faz com que grandes cidades, como Lisboa, aumentem cada vez mais os problemas sociais e de segurança.

No caso da Saúde, muitas aldeias perderam o atendimento local, sendo os utentes deslocados para as sedes de concelho. Houve o fecho ou suspensão recorrente de blocos de parto e serviços de urgência em hospitais do interior (ex: Castelo Branco, Portalegre, Chaves), muitas vezes por falta de médicos especialistas.

O caso de encerramento de postos dos CTT, também estão a ter grande impacto na falta de investimento económico no interior de Portugal. Desde a privatização dos CTT, centenas de postos de correio próprios foram encerrados, sendo substituídos por parcerias com juntas de freguesia ou estabelecimentos comerciais. Coimbra teve a sua fatia de falta de investimento. Esta medida afetou gravemente a população idosa do interior que dependia destes postos para o recebimento de pensões.

A Justiça, representada pelos Tribunais, também foi outra área de grandes cortes pelos Governos nacionais. A reforma do mapa judiciário (iniciada em 2014, mas com efeitos e ajustes na última década) levou ao fecho ou perda de competências de dezenas de tribunais em concelhos de baixa densidade. Alguns foram reabertos como "secções de proximidade" após 2017, mas com funções muito limitadas e sem condições mínimas de funcionamento.

No caso dos transportes públicos como os caminhos de ferro, uma infraestrutura importante para grandes desenvolvimentos económicos e de transporte de pessoas e bens, também sofreu (continuando a sofrer) cortes grandes é o caso do Ramal da Figueira da Foz ou o Ramal de Cáceres, a última década foi marcada pela falta de manutenção e atrasos na modernização de linhas críticas como a do Douro e do Alentejo.

Resumo regional dos impactos dos cortes nas infraestruturas de Portugal na última década afetaram muito mais Vila Real e Bragança que foram fortemente atingidos pelo fecho de escolas e serviços de saúde.
O caso de Portalegre, foi o Distrito que mais perdeu população proporcionalmente, resultando no fecho de comércio local e agências bancárias. Onde Coimbra também foi afetada.
No Concelho de Viseu foi histórica a perda de equipamentos públicos (mais de 480 serviços encerrados em períodos acumulados recentes).

Atualmente, o governo tenta mitigar estes fechos através de Espaços do Cidadão, que concentram vários serviços digitais num único balcão para evitar a deslocação das populações às capitais de distrito, mas nem sempre resolvem. As populações consideram “remendos” que “estão longe de uma boa organização” do território nacional.

As consequências dos cortes das infraestruturas e da sua consequência, natural, de falta de população também obriga a perda de poder político. O caso de Coimbra passou a só poder eleger 9 deputados, que nem sempre defendem o interesse do Distrito.

FG
13-02-2026