SIC TRANSIT MEMORIA MUNDI

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 Francisco Lucas Pires, faria 78 anos de idade, no dia 15 de Setembro.

O absoluto mutismo dos meios de comunicação social falada, escrita e televisiva portugueses sobre Francisco Lucas Pires, bem como o publicamente generalizado silêncio de amigos, colegas universitários, parlamentares, classe política, sugeriu-me a paráfrase que utilizei no título.

Serve esta nota e outras que se irão seguir de indesmentível e quase solitário testemunho de respeito, gratidão e amizade.

 Francisco Lucas Pires

 A História impõe-se tanto por si mesma, que a sua evocação se contenta sempre com palavras breves, simples claras.

 Sobretudo em Aljubarrota. De facto, se não foi aqui a batalha do «baptismo» nacional, foi aqui, porém, sem dúvida, a batalha da «confirmação» nacional. Foi aqui que se consolidou a nossa última fronteira e o definitivo escudo da pátria, antes da lança em África e para lá dela. De toda a nossa História, Aljubarrota é o símbolo de tudo aquilo que continuou sempre a ser mais do que História, ou mais do que apenas História, na nossa vida colectiva. Foi aqui que se selou a aliança mais firme, permanente e constitutiva entre o povo e a sua terra. Foi aqui que a nossa terra se tornou sagrada para os portugueses, dolorosamente sagrada. Terra que não nos fixava mas nos libertava, servindo também como base positiva a uma universalidade que é a nossa outra face. Afinal, por muito universal que seja uma cultura, ela não é possível sem a sua terra, não é possível sem a reivindicação prévia de uma fronteira para se erguer. Daí que em Aljubarrota resida ainda hoje a sede da maior força interior do país.

 Não admira assim que, aqui mesmo, esteja um altar do culto de independência, a base da divisa mais real de Portugal, mas também o ponto de partida de uma concepção militante do futuro colectivo. Sente-se aqui que cada país é uma ideia multiplicada por sucessivos testemunhos humanos através o tempo. Que cada país é uma ideia e uma força que se conjugam, que cada país é uma ideia cuja força vai o ponto de a defender e de a tornar vitoriosa pelas armas. A aliança das Forças Armadas deve ser sempre com uma cultura, nunca com a ideologia. (...) As lições da História são muito úteis quando o que está em causa, mais do que a opção entre modelos ideológicos, de direita ou de esquerda, é a opção entre modelos de país. Mais do que entre direita e esquerda estamos entre duas ideias de país, e do seu relacionamento com o mundo. As «guerras» de independência, qualquer que seja o tipo de independência e mesmo as democráticas, nunca serão entre direita e esquerda, embora o possam ser entre dois «países», ora concretos como em Aljubarrota, ora ideias como «hoje». (...) A nossa independência hoje decide-se, sobretudo, entre nós próprios. O nosso patriotismo hoje, há-de ser, sobretudo, vontade e inteligência, mesmo na formação militar. O nosso futuro, hoje, passa por um contrato e não por uma guerra. Afinal o apelo de Aljubarrota hoje é este contrato de independência nacional à volta de uma ideia concerta e comum de país.

 E como a independência é de todos ou não será de ninguém, seria um fracasso não ouvir esse apelo. É dele que depende, depois da História de Aljubarrota e da dos Jerónimos, esta terceira e nova História por fazer e que tomos somos chamados a realizar.

Luísa Amaral

Em Esmeralda Maria Botto Antas