Calendário

 

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Janeiro. O sol vem devagarinho

bater à minha porta. Vem dizer

que o frio é um punhal. E o caminho

é uma rosa de sono a apodrecer.

 

Fevereiro. As aves têm medo

de poisar nos braços da manhã.

Morreu a toutinegra. O arvoredo

deita lágrimas de cinza e hortelã.

 

Depois Março rasteja. É uma hera

penetrando o ventre da alegria.

A terra é verde. E é loira a primavera

bordada a fios de sol do meio-dia.

 

Abril é um abraço. É uma flor.

A flor que tem raiz no coração.

Abril foi um sol dado. Um sol maior.

Uma espingarda dentro da razão.

 

E Maio? Ah sim! De Maio o menos

que poderei dizer é a verdade.

É da luta na rua que faremos

um país que seja a própria liberdade.

 

Mês de Junho: a pedra sobre o lago.

Um barco de palavras que não vejo.

O mar da estranha calma em que naufrago.

A praia onde respira o meu desejo.

 

De Julho quase nada. Fiz um filho.

As noites são irmãs da minha boca.

E há beijos que me sabem a tomilho

quando abraço das estrelas a mais louca.

 

Agosto é a seara. A lua cheia

de promessas. De raivas. De cantigas.

O sol é uma aranha. E faz a teia

entre o azul do céu e as espigas.

 

Setembro da tristeza. Das vindimas.

Ai vinhas da mentira! Orgasmo das videiras!

Há cachos de uvas brancas nestas rimas.

Borboletas colorindo as bebedeiras.

 

Outubro é um cavalo. Um potro branco.

Escoiceando o vento. Mordendo a claridade.

E ferido de um só golpe sobre o flanco

ainda vai trotando esta ansiedade.

 

E vem Novembro. Um assassino deixa

morrer a minha pátria. E jaz no chão

a minha rosa negra. A minha queixa.

Novembro não tem paz. Não tem perdão.

 

Dezembro. Cantaram-se outros hinos.

Gritaram-se os poemas que não fiz.

E morro entre palavras. Entre os sinos

que tocam a rebate o meu país.

 

Joaquim Pessoa

in AMOR COMBATE.

Art/Ashvin Harrison