Um homem passa com um pão ao ombro

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Um homem passa com um pão ao ombro
– Vou escrever, depois, sobre o meu duplo?

Outro senta-se, coça-se, tira um piolho do sovaco, mata-o
– Com que desplante falar da Psicanálise?

Outro entrou em meu peito com um pau na mão
– Falar, em seguida, de Sócrates ao médico?

Um coxo passa dando o braço a um menino
– Vou, depois, ler André Breton?

Outro treme de frio, tosse, cospe sangue
– Convirá não aludir jamais ao Eu profundo?

Outro busca no lodo ossos e cascas
– Como escrever, depois, sobre o infinito?

Um pereiro cai de um telhado, morre, já não almoça
– Inovar, em seguida, a metáfora, o tropo?

Um comerciante rouba um grama no peso a um freguês
– Falar, depois, da quarta dimensão?

Um banqueiro falsifica o seu balanço
– Com que cara chorar no teatro?

Um pária dorme com um pé às costas
– Falar, depois, a ninguém de Picasso?

Alguém vai num enterro a soluçar
– Como em seguida ingressar na Academia?

César Vallejo - Peru 1892 - Paris 1938

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