UM PEPINO CHAMADO ITAP

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A Câmara Municipal de Coimbra decidiu transferir a gestão do ensino profissional da Prodeso (empresa municipal que geria o ITAP) para a ADEPTOLIVA (Associação para o Desenvolvimento do Ensino Profissional dos Municípios de Oliveira do Hospital, Tábua e Arganil).

Mas o que está por trás de tudo isto?

Para além da confusão causada por uma, alegada, promessa da vereadora eleita pelo Chega (que entretanto deixa o partido que a elegeu) de dirigir o ITAP, coisa que nunca se realizou. Provando estratégias políticas em cima do joelho. Sem qualquer tipo de preparação do atual executivo liderado pela presidente da Câmara de Coimbra Ana Abrunhosa.

Mas esse nem é o problema maior, imagine-se que há problemas muito maiores.

De forma resumida o Instituto Técnico Artístico e Profissional de Coimbra (ITAP), no início tinha uma forma de formação profissional. As escolas profissionais (criadas pelo Decreto-Lei 26/89) focavam-se em trazer o "saber-fazer" para a sala de aula.
O corpo docente era composto maioritariamente por profissionais e técnicos especializados que vinham diretamente das empresas e do setor artístico. Na altura o objetivo era transmitir competências práticas imediatas para o mercado de trabalho, com menos ênfase na formação académica clássica.

Depois nesta fase que estamos hoje, o ITAP passou a ser visto como uma outra escola secundária para absorver os professores do ensino secundário e por isso houve mudanças que afastaram da sua formação profissional. Atualmente, o ITAP rege-se pelo Decreto-Lei nº 92/2014, que exige que os docentes tenham habilitações para a docência reconhecidas pelo Ministério da Educação. Na prática era afastar os profissionais e passar a entrar professores que davam aulas no secundário.

ITAP transformou-se em mais uma escola secundária que facilitava a entrada no ensino superior, enquanto a formação profissional era só de nome.

Por outro lado temos o caso da Irlanda (a independente) que continuou com a formação de facto profissional.

Comparar o sistema de formação profissional do ITAP (Portugal) com o modelo da Irlanda revela duas abordagens distintas à educação técnica.
Enquanto Portugal segue um modelo que praticamente concorre com escolas secundárias; a Irlanda aposta fortemente na aprendizagem no posto de trabalho (Apprenticeships) e na flexibilidade para adultos.

Na Irlanda o aluno aprende uma profissão enquanto trabalha, dividindo o seu tempo entre a sala de aula e o posto de trabalho real, passa a ser central. O aluno é frequentemente um funcionário pago pela empresa desde o primeiro dia. O empregador desenha o currículo com o Estado para garantir que as competências são atuais. Geralmente, o aluno passa 70-80% do tempo na empresa e 20-30% numa escola ou centro de formação. Na empresa, o aluno é acompanhado por um profissional experiente que ensina as competências práticas.
A certificação é oficializada com um diploma escolar e uma certificação profissional reconhecida. Isto na Irlanda.

Em Portugal o aluno faz um pequeno estágio de 2 a 3 meses numa empresa só para confirmar que é uma “escola profissional” e depois vai para o ensino superior, talvez num daqueles cursos inventados em cima do joelho, mas que pagam a escola superior com as suas propinas.

Enquanto na Irlanda a formação é altamente valorizada e vista como uma alternativa sólida à universidade. Em Portugal é só mais uma maneira de explorar o aluno...ou os pais.

Voltando à medida, mais uma vez em cima do joelho, da CMC, a transição do ITAP para a ADEPTOLIVA representa uma mudança estrutural profunda que visa salvar a escola da extinção e modernizar o seu modelo de gestão. No entanto, a comparação com o sistema irlandês revela que, embora a gestão mude, as diferenças sistémicas permanecem.

Com realismo: a transição é só para resolver o passivo financeiro da Prodeso e garantir que os cursos do ITAP não fechem por falta de viabilidade económica.
ITAP (ADEPTOLIVA) é obrigada a seguir o errado regime português. Embora dê acesso ao Ensino Superior, o currículo foca-se muito na preparação para o exame de 12º ano, o que, naturalmente, retira horas à prática tecnológica que a Irlanda prioriza.

Na realidade nada muda e o erro de que o aluno nem é preparado para o ensino superior, nem é preparado para a via profissional, continua no ITAP e em todas as escolas profissionais.

Só um modelo parecido com o irlandês, onde o aluno tem uma carga de 70 a 80 por cento na empresa e 30 a 20 por cento na escola que o acompanha e o prepara é que pode desembrulhar este erro que Portugal paga muito caro.

Depois dizem que não há um aumento na produção de Portugal...ora porque será?

A verdade é que nos anos 90, Portugal e Irlanda tinham PIBs per capita semelhantes. Hoje, segundo os dados de Euronews.com, o PIB per capita irlandês em Poder de Compra (PPC) ronda os 116.770€, enquanto o português se arrasta pelos 28.390€.

Um trabalhador irlandês produz, em média, 4 vezes mais riqueza do que um português no mesmo espaço de tempo. Porquê? Porque enquanto o irlandês foi treinado na empresa para resolver problemas reais, o português foi treinado no ITAP para decorar o Decreto-Lei nº 92/2014 e saber como pedir uma equivalência ao ensino superior.
Alguns críticos, como os do PCP, argumentam que o PIB irlandês é "inflacionado" por multinacionais. Mas mesmo que usemos o Rendimento Nacional Bruto (RNB), a Irlanda continua a ter o dobro da riqueza de Portugal. É a diferença entre ter uma economia que exporta software e serviços e uma que exporta... bem, jovens licenciados para a Irlanda.

JAG
24-04-2025