COIMfluencer
ONDE A RING LIGHT BRILHA MAIS QUE A CAPA
Coimbra sempre foi conhecida por formar médicos, advogados, engenheiros, arquitetos, mas agora forma outra espécie rara: gente que sabe olhar para um telemóvel como quem olha para o futuro. Os chamados “criadores de conteúdo”. E atenção, se juntarmos José Bernardo, Biatrix Pinto, Débora Monteiro e Carolina Diogo, ultrapassamos meio milhão de seguidores, o que significa que, se todos viessem cá ao mesmo tempo, o Parque Verde enchia e ainda se pedia extensão para o Portugal dos Pequenitos. Coimbra pode não ter emprego para todos, mas tem engagement para dar e vender.
Mas antes de falarmos deles, convém admitir uma coisa que ninguém gosta de admitir, os influencers não nascem do nada, somos nós que os fabricamos. Coimbra é pequena o suficiente para toda a gente se conhecer, mas grande o suficiente para toda a gente fingir que não se conhece. É uma cidade onde a vida real anda devagar, mas o feed corre à velocidade do Flash. Onde a economia estagna, mas o algoritmo floresce. Onde não há futuro garantido, mas há sempre uma trend nova para tentar.
Comecemos pelo José Bernardo, o rapaz que transforma a Baixa num talk show improvisado. Com 215 mil seguidores, viraliza mais depressa do que um boato sobre a vizinha. O talento dele é real, mas apanha respostas tão profundas quanto um pires de café e mesmo assim faz ouro com conversa fiada. A magia está aí. Coimbra devia dar‑lhe uma medalha, ou pelo menos um microfone com cancelamento de ruído. Mas sejamos honestos, ele só existe porque nós adoramos ver estranhos a dizer barbaridades em público.
Depois temos a Biatrix Pinto, que dança como se tivesse um pacto secreto com o departamento de sismologia da Lousã, mexe-se tanto que devia ser medido em escala Richter. Com cerca de 300 mil seguidores, desafia a física e a moda ao mesmo tempo, é praticamente a embaixadora oficial das “calças ao contrário”. Coimbra nunca teve tanto movimento desde a Queima das Fitas. O talento é claríssimo, mas as trends duram 48 horas e morrem, deixando seguidores a tentar replicar coreografias que nem o ortopedista recomenda.
A Débora Monteiro, com cerca de 175 mil seguidores, mostra Coimbra como se fosse uma cidade que vive permanentemente numa revista da VOGUE. É bonito, é inspirador, mas também é uma maneira de nos lembrarmos que a vida real não tem filtros. A cidade não é perfeita, e a realidade não é bem como ela a mostra, mas nós gostamos mais da versão editada.
Carolina Diogo transforma estética em conteúdo com tanta precisão que até o espelho deve sentir que está a falhar. Cada gesto parece patrocinado por skincare, e ela faz tudo com uma calma que até o algoritmo deve sussurrar “slay, minha filha”. Se eu tentasse fazer um GRWM igual, o meu telemóvel entrava em pânico e dizia “isto não é slay, isto é sobrevivência”.
O mais curioso é que Carolina não vive apenas no feed. Também marca presença em mesas institucionais, como as da APBRA, uma associação cultural cujo presidente é, por coincidência, o seu pai. Uma família unida pela cultura, pela língua e, aparentemente, por uma extraordinária capacidade de estar sempre no sítio certo quando surgem projetos, protocolos e apoios.
Enfim, eu só observo padrões. Numa cidade onde quase ninguém tem oportunidades, há famílias que parecem ter acesso ao pacote completo. E enquanto uns tentam perceber como pagar as propinas, há quem consiga transformar estética, cultura e instituições num sistema muito bem iluminado. Normalmente herdamos apelidos,outros herdam oportunidades.
Coimbra está cheia de talento, criatividade e carisma. O problema não são os criadores, somos nós, que consumimos tudo isto como se fosse realidade pura, quando é só entretenimento com boa iluminação. No fim de contas, estes criadores de Coimbra são como a própria cidade: bonitos, caóticos, talentosos e ligeiramente viciados em atenção.
Coimbra já foi cidade dos doutores. Agora é também a cidade dos criadores de conteúdo, da geração que domina a arte de transformar o vazio em algo relevante, desde que brilhe no feed. Chamam-lhe conteúdo, mas sejamos honestos, não há criação de conteúdo absolutamente nenhum, só exposição coreografada e grandes futilidades com a confiança de quem acredita que existir já é um trabalho. E sinceramente? Este é o verdadeiro problema desta geração. Já só falta uma estátua ao ring light, em homenagem aos “criadores de conteúdo” na Praça da República, porque hoje é ele que lança carreiras com mais eficácia do que qualquer sala de aula, qualquer tese ou qualquer mérito real.
Isis
08/05/2026

