DEEM A DIGNIDADE AO CIMENTO

HOSPITAIS 1

 

Há quem diga que o IPO de Coimbra é um centro de tratamento oncológico, no entanto, os mais atentos, percebem que, parte dos funcionários, da administração, existe mais dedicação com as obras do edifício, do que com os doentes oncológicos. E convém esclarecer que não está a ser construído um novo edifício, o que está a ser feito é a requalificação do edifício atual, que será expandido e remendado enquanto os doentes tentam não tropeçar nos andaimes. 

A casa de banho de um dos pisos está avariada desde o início do ano, o motivo é épico, uma peça de autoclismo, pois não há dinheiro. É triste e comovente ver um hospital capaz de tratar tumores complexos ser derrotado por um pedaço de plástico de cinco euros. E claro, a porta da casa de banho não está adaptada para quem tem mobilidade reduzida, porque aparentemente no IPO, a mobilidade reduzida é vista como uma extravagância.

Chegou-nos ao Ponney que as cirurgias só acontecem ao fim de semana, como se fossem uma espécie de brunch médico. Disseram-nos ainda que o conselho administrativo prefere que as obras avancem devagarinho, talvez para não cansar o cimento. Pelo que soubemos, a radioterapia e os exames são marcados para as 20h, 21h, 22h, não há qualquer preocupação com idade, localização ou dignidade do doente. O doente oncológico, aparentemente, é visto como alguém que não tem nada para fazer às 21h além de apanhar um táxi para o hospital. A equipa quer dar horas extra, a administração quer dar horas de espera. E no meio disto, o doente perde anos de vida.

Os internos dão consultas enquanto os especialistas descansam nos gabinetes, numa espécie de retiro espiritual financiado pelos contribuintes. Há quem chame isto gestão, mas trata-se apenas de falta de vergonha.

Depois temos ainda o caso dos Hospitais da Universidade de Coimbra. A greve a 4 e 5 de maio, que apoio pois o direito laboral é sagrado. O único problema é o doente esperar meses ou anos por uma cirurgia urgente e, no dia da operação, ser mandado de volta para a lista de espera. O problema não é a greve, é não assegurar os cuidados a quem precisa deles. Doenças não fazem greve, mas pelo que parece fazem fila. Gasta-se dinheiro em pré-operatórios, exames e diagnósticos e depois nada acontece. É completamente inadmissível,  como se o sistema estivesse mais empenhado em adiar do que em tratar.

Os Hospitais de Coimbra deveriam ter mais atenção para com o doente, seja ele oncológico ou não, tenha ele cortado um dedo ou uma perna. Doente é doente. Qualquer pessoa merece ser tratada com respeito e dignidade e merece um sistema que funcione. Merece mais do que casas de banho avariadas, cirurgias ao sábado, exames fora de horas e listas de espera que parecem o talão da compra mensal do continente.

No final gastam-se milhões a requalificar paredes, mas não se requalifica a forma como se trata quem precisa delas para sobreviver. E enquanto o edifício aumenta, o respeito diminui. Talvez um dia percebam que a verdadeira obra e a única que realmente importa, é devolver a dignidade a quem já perdeu tanto. Até lá, resta-nos assistir a este espetáculo de betão e burocracia, onde o doente continua a ser o único que não tem direito a uma pausa.

Isis

08/05/2026