A CORAGEM DO MOVIMENTO DE HUMOR E A SUSPENSÃO DA JUSTIÇA

A frase “o Verão enlouquece as pessoas” — não é minha! Isto que se diga por uma questão de defesa dos direitos autorais. A minha amiga Mara Elga é a real autora desta frase, quase filosófica. Já o tinha escrito noutra crónica. Mas o assunto agora leva-me a sair do muro de não saber se é mesmo assim. Sim! Se as pessoas enlouquecem mesmo com o calor.
No entanto, em janeiro deste ano de 2026, o Movimento de Humor — valha-nos a coragem de ser o único meio a deitar a mão ao assunto — trouxe a público um enlouquecimento protegido por um certo estatuto. Ora, as queixas de assédio sexual físico contra funcionárias de limpeza na Casa da Cultura merecem toda a nossa atenção.
Logo na área da Cultura, onde se esperaria o topo do bolo do pensamento humanista, as vítimas são as pessoas socialmente mais desfavorecidas. Mulheres que são as “invisíveis”. Gente que faz um trabalho digno, duro, em silêncio, e que por não ter voz na escala do poder, acaba a sofrer a violência psicológica de homens sem escrúpulos. Quando o MH denunciou o caso, o presumível assediador foi mandado uns dias de "férias" e regressou logo a seguir ao trabalho, num andar sensual de impunidade que cheirava a cumplicidade dos decisores.
A Mara, rápida no gatilho, havia de me recordar a sua teoria digna de um Wittgenstein, de um Habermas, ou da própria Hannah Arendt, para provar que a sociedade está a perder o norte. E eu, que carrego o grande bolo filosófico repleto de “crème de la crème”, quase me engasgo com a exatidão fria dos calendários oficiais.
É que no dia 6 deste mês de julho, a Lusa veio finalmente anunciar que o executivo da Câmara de Coimbra aprovou, por unanimidade, a suspensão por 180 dias do tal funcionário do Departamento de Cultura e Turismo. Notem que é “SUSPENSÃO”, não é despedimento por justa causa. Até porque o relatório final deu como provado que o homem teve “comportamentos de natureza sexual” com duas mulheres da limpeza entre agosto de 2024 e dezembro de 2025.
Seis meses! De janeiro a julho. É este o tempo que o pragmatismo progressista da autarquia demora para desembrulhar o óbvio. Uma lentidão calculista que reduz o sofrimento humano a uma engrenagem burocrática bem oleada, onde os papéis contam mais do que as pessoas. Querem-nos transformar em máquinas frias, eficientes, sem psicologia, onde as falhas e as dores são normalizadas em gavetas de arquivo. E no final... a “SUSPENSÃO”!!
«- Mara, sê mais paciente!» — diria eu ao ver tanta lentidão na justiça. E ela responderia na sua velocidade: «- Não! Já me deram alta!»
E a verdade é que não há paciência que resista. Se o enlouquecimento do verão nos traz a extravagância das roupas e a criatividade do sol, este enlouquecimento cinzento das instituições traz-nos a revolta. Valeu a audácia do Movimento de Humor em janeiro para que estas mulheres não fossem totalmente varridas para debaixo do tapete.
Fica assim o que me passa pela cabeça durante os intervalos onde me gritam os desordenados pensamentos. Desta vez, por causa de Coimbra, quase que caí do muro.
Maria Júlia
