O RITMO DA SAUDADE E O ENCONTRO CASUAL EM SANTIAGO

JO JONES130

 

(Primeira parte)

Falar sobre a ilha de Santiago em Cabo Verde, não é uma tarefa fácil. Há lugares no mundo onde o que sentimos ultrapassa a barreira das palavras; tornam-se sensações indescritíveis que se colam à pele e à memória. Como alguém que já conhecia a "Wi-Fi espiritual" do continente africano, confesso que já tinha saudades de sentir aquele calor único, aquela envolvência humana e o acolhimento de gentes de sorrisos fáceis e sinceros.

Para nós, viajantes ocidentais, tudo se processa a uma velocidade vertiginosa. No entanto, em Santiago, o tempo ganha outra elasticidade. Vive-se com uma cadência própria, mais humana e contemplativa. Pelas ruas, as mornas nostálgicas, o funaná enérgico e o pulsar das batucadeiras misturam-se constantemente com o cheiro a mar e o perfume doce da fruta madura que emana dos mercados.

A ilha é deslumbrante e o clima, de uma mansidão amena, convida a desacelerar.

A nossa base foi a cidade da Praia. Encontrámos a capital mergulhada numa azáfama vibrante, motivada pelas decisivas eleições legislativas. Ali, a propaganda política não se faz com subtilezas: ganha as ruas quem tiver as maiores colunas de som e a melhor aparelhagem montada em cima de carrinhas, carros e motas. Tudo é válido mas tem que ser grandioso.

O debate político transforma-se numa verdadeira festa. Em vez dos discursos demagógicos e cinzentos a que estamos habituados na Europa, a mensagem entra ao ritmo local. São criadas cantigas com os compassos tradicionais da ilha e, nas bermas das estradas, o povo assiste e dança com uma alegria contagiante. É um marketing acústico irresistível: talvez as promessas eleitorais entrem mesmo melhor na mente quando são embaladas pelo ritmo da música.

Neste cenário de festa, o grande vencedor acabou por ser o sociólogo Francisco Carvalho, que estudou em Lisboa e que o povo local já conhecia bem enquanto presidente da Câmara Municipal da cidade capital, Praia.

Quis o destino ou a magia de Santiago, que eu me cruzasse com o futuro Primeiro-Ministro durante a minha estadia. O encontro aconteceu da forma mais democrática e espontânea possível: junto a uma vendedora de cocos. Ele tinha sede, eu também. Não há melhor cenário do que a berma de uma estrada cabo-verdiana, a partilhar água de coco, para desmistificar o poder.

Francisco Carvalho revelou-se um homem de uma simpatia genuína, simples e extremamente afável. Percebe-se o porquê de o povo confiar nele; há uma empatia natural no seu trato. Do outro lado da barricada, o anterior governante Ulisses Correia, acabou por aceitar a derrota e deixar a liderança do seu partido, selando uma transição pacífica e exemplar. Naquele breve momento junto à estrada, troquei algumas palavras com o vencedor, desejei-lhe boa sorte e, pelo visto, o amigável voto de confiança deu frutos.

Com a sede saciada e a alma cheia, continuei a minha caminhada por esta ilha de contrastes, sabendo que outras aventuras me esperam no horizonte. Por hoje, partilho apenas este postal sonoro, humano e político. Não me vou alongar mais, pois o espaço no jornal é curto para tanta vida.

Voltarei na próxima semana para vos guiar por mais alguns cantos e encantos da ilha Santiago.

Até lá, boas leituras.

Manuela Jones