UC COM DOIS MILHÕES EM HIPOCRISIA

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O romantismo, criado com o 25 de Abril de 1974, está oficialmente morto, enterrado e selado com o carimbo da burocracia académica. Mas, a Universidade de Coimbra, não deixa de aparentar a defesa da democracia e da inclusão.

Enquanto as gerações passadas saíam à rua com cravos na mão e conquistavam o modelo paritário e o direito sagrado à discussão na vetusta Universidade de Coimbra (UC), a máquina administrativa das últimas décadas tratou de comer os cravos à lagarta e domesticar a estrutura de poder.

O veredicto é claro e prova que morreu o direito de debate sincero na Alta e o que os estudantes pensam vale tanto como uma nota de três euros.

A prova provada desta capitulação democrática está inscrita a ouro nos próprios Estatutos da Universidade de Coimbra, revistos há pouquíssimo tempo, em Fevereiro de 2026. O documento oficial consolida uma escandalosa assimetria de representação nos órgãos de decisão. Os estudantes, que outrora julgaram ter conquistado o céu em 1974, viram as suas asas cortadas pelas canetas afiadas dos burocratas modernos. Hoje, a sua presença nos conselhos diretivos serve apenas para preencher a quota legal e fazer figura de corpo presente, enquanto os destinos da instituição são decididos à porta fechada por tecnocratas de fato e gravata.

É neste cenário de deserto democrático intramuros que salta a notícia mais hilariante — e contraditória — do ano. Numa demonstração de esquizofrenia institucional sem precedentes, a mesma Universidade de Coimbra anunciou orgulhosamente que está a liderar o projeto internacional EU-CIEMBLY, financiado pelo Horizonte Europa com mais de dois milhões de euros, para ensinar a União Europeia a criar assembleias de cidadãos mais "inclusivas".

Sim, leu bem. A UC recebeu dois milhões de euros para explicar ao mundo como incluir as pessoas mais vulneráveis nas decisões democráticas. A coordenadora do projeto, a jurista Dulce Lopes, explicou com toda a candura que o modelo tradicional "não funciona" e que é preciso garantir que diferentes fatores — como a idade ou a condição socioeconómica — não influenciem negativamente a participação na vida pública. A equipa anda a organizar assembleias-piloto em Colchester e em Chipre para debater a crise da habitação, preocupada em dar voz a quem não a tem.

Dá vontade de rir para não chorar. A UC transforma-se numa espécie de "missionária da inclusão" além-fronteiras, enquanto dentro do seu próprio campus aplica um regime de silenciamento estatutário digno de um feudo medieval. O caso flagrante da PROIBIÇÃO de consumo de carne de vaca nas cantinas universitárias, sem a necessária discussão provam a falta de Democracia intramuros da UC.

Para os investigadores seniores, o modelo de audição e flexibilidade de participação aplica-se em Chipre; para os caloiros e veteranos de Coimbra que sofrem com a mesmíssima crise da habitação nas repúblicas e nos quartos inflacionados da Baixa, aplica-se o modelo "paga a propina e não bufes".

O Ponney faz questão de saudar esta maravilhosa capacidade da nossa Reitoria em vender ao estrangeiro aquilo que não pratica em casa.

Sugerimos, aliás, que o projeto de dois milhões de euros inclua uma terceira assembleia-piloto, não em Colchester, mas nas Escadas Monumentais. Podiam convidar os estudantes para testar essa maravilhosa "abordagem interseccional" e flexível na definição dos preços das cantinas ou no peso do voto estudantil para a escolha do Reitor.
Pena é que, talvez, não haja orçamento para isso.
Na UC do século XXI, a democracia é um excelente produto de exportação financiado por Bruxelas, mas um péssimo hábito de consumo interno.

JAG
10-07-2026