UMA ALTA MEDIDA PARA A BAIXA DE COIMBRA

Finalmente o nosso querido executivo da Câmara Municipal percebeu o óbvio: a Baixa de Coimbra precisava de oxigénio, de vida e, acima de tudo, de pessoas que ainda não tenham idade para receber a reforma por inteiro.
A decisão do Instituto Superior Miguel Torga (ISMT) fazer as malas e descer de Celas diretamente para a Praça do Comércio e para a Rua Ferreira Borges é a melhor notícia desde que alguém inventou a receita do pastel de Santa Clara.
Toda a gente sabe que a Baixa estava tão pacata que até os pombos locais sofriam de crises de tédio existencial. Mas a Presidente da Câmara Municipal, Ana Abrunhosa, teve um golpe de génio digno de um xadrezista internacional durante o Dia da Cidade, que em vez de injetar milhões em cartazes publicitários a dizer "Visite a Baixa", decidiu injetar estudantes. Centenas deles. Com fome, sede e uma necessidade crónica de fotocópias. Claro que quando acabam as aulas, volta o velho silêncio urbano, mas enquanto dura é bom e pode trazer mais investimentos.
A escolha do edifício é, aliás, de uma ironia poética deliciosa. O ISMT vai instalar-se nas antigas instalações da Caixa Geral de Depósitos. Isto sim é reconversão urbana de valor! Onde outrora os cidadãos iam ver as poupanças a desaparecer ou a implorar por créditos à habitação, agora vão habitar jovens a tentar perceber a matéria de exame e a depositar o seu escasso subsídio de alojamento nas caixas registadoras do comércio local.
Passamos dos "depósitos bancários" para os "depósitos de cafeína" nas esplanadas vizinhas.
Dizem os alguns céticos que tirar o ISMT de Celas vai deixar o espaço com mais uma cruz. Ora, Celas já tem hospitais que cheguem para manter o movimento! A Baixa é que precisava deste "choque de desfibrilhador académica".
Imagina-se já o cenário em Setembro, onde vemos as esplanadas cheias, as sapatarias históricas a tentar vender sapatilhas de lona a caloiros e os lojistas da Ferreira Borges a aprender gíria estudantil para conseguirem faturar.
Abandonar as instalações originais em prol do desenvolvimento urbano é um sacrifício nobre. Se o Miguel Torga estivesse vivo, certamente escreveria um poema sobre a beleza de ver um estudante de Psicologia ou de Comunicação a correr pela Rua Ferreira Borges abaixo porque adormeceu e o teste começava às oito da manhã.
É urgente que a sociedade regresse ao centro para morar, trabalhar e estudar. E se para isso precisamos de transformar antigos balcões bancários em salas de aula, que assim seja. Que venham os estudantes do Torga, que tragam as suas sebentas e que devolvam a Coimbra o que ela tem de melhor, que é a saudável e ruidosa confusão académica. A Baixa agradece e os comerciantes locais já estão a encomendar barris de cerveja em duplicado.
AF
10-07-2026
