A BAZUCA DO PRR E O MILAGRE INVERSO DE BRUXELAS

2 BAZUCA1

 

Para quem achava que as obras do metroBus eram o único monumento à paciência dos conimbricenses, os mais recentes dados da Comunidade Intermunicipal de Coimbra vieram provar que, quando o assunto é habitação pública e fundos europeus, a nossa região opera numa dimensão temporal inteiramente própria.

A célebre e badalada "bazuca" (nome dado pelo anterior Primeiro Ministro - António Costa) do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), desenhada com pompa e circunstância para injetar milhões em habitação social até ao limite estrito de Agosto, acabou por sofrer um severo ataque de burocracia conimbricense.

Em vez do prometido festival de inaugurações e chaves na mão, o cenário atual assemelha-se mais a um deserto de betão e a um manual de como falhar prazos, aumentar muito os orçamentos iniciais, mas com distinção académica.

Façamos as contas, com o rigor aritmético que costuma faltar nos gabinetes municipais. Do ambicioso plano que previa entregar mais de 450 fogos habitacionais para famílias vulneráveis na região, as previsões oficiais apontam para a conclusão definitiva de uns míseros 61 fogos dentro do prazo. Ou seja ficam a faltar 389 fogos habitacionais, os n~umeros apontam uma falha escandalosa!

Ou, se quisermos ir mais ao geral: de 33 projetos apalavrados com Bruxelas, apenas nove vão conseguir ver a luz do dia a tempo e horas. Isto representa uma taxa de eficácia de cerca de 15%. Esta taxa tão baixa não pode ser resolvida com desculpas, mas com pedido de responsabilidades aos autores dos projetos e à falta de fiscalização.

No resto do Distrito, o panorama imobiliário é igualmente negativo. Coimbra reabilita quatro habitações, a Figueira da Foz salva a honra do convento com 29, e o restante divide-se em migalhas pela Lousã, Mortágua e Poiares. Há mesmo investimentos avultados em Arganil, Mealhada, Penacova e Montemor-o-Velho que ficaram a meio do lodo das derrapagens temporais, sem esquecer Cantanhede ou a Pampilhosa da Serra, onde a colher de pedreiro nem sequer chegou a sair da embalagem por falta de tempo útil.

Como as culpas nunca morrem solteiras na administração pública, os mentores dos projetos já encontraram o culpado perfeito: o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU). Dizem as autarquias, com uma lágrima no olho, que o bicho-papão do IHRU só se lembrou de ir fiscalizar os empreendimentos quando os tijolos já estavam de pé, exigindo alterações técnicas de última hora e emperrando os computadores com plataformas digitais pouco intuitivas. Os argumentos só agora vieram à luz do dia, depois de se perceber das enormes falhas. É interessante que as Autarquias não vieram pedir contas logo no início.

Para ajudar à festa, vieram, também, à baila o argumento de que os fluxos financeiros tardam em cair nas contas municipais, obrigando os executivos locais a correr atrás do prejuízo para tentar arranjar capitais próprios que garantam a sobrevivência das obras quando a “bazuca” europeia se esfumar.

Resta-nos o consolo de saber que os milhões continuam a rolar, a engenharia das derrapagens mantém-se de boa saúde e os cidadãos continuam no mesmo sítio, que é o mesmo que dizer continuam à espera do teto e, a maioria a pagar a fatura da incompetência planeada.

JAG
26-06-2026