BANDEIRA AZUL EM COIMBRA, ONDE O MONDEGO DIVIDE E A BUROCRACIA COMANDA

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A época balnear no Concelho de Coimbra arrancou oficialmente no dia 1 de Junho de 2026, com o executivo camarário a hastear orgulhosamente a Bandeira Azul tanto no Rebolim como em Palheiros e Zorro. Mas não se deixem enganar pelo duplo galardão da Associação Bandeira Azul de Ambiente e Educação (ABAAE). Olhando de perto para as duas frentes ribeirinhas, percebe-se rapidamente que o rio Mondego divide mais do que margens, pois também divide o tratamento VIP da autarquia que, não tendo verba para tudo, deixa a praia urbana do Rebolim entregue um pouco à própria sorte.


Se o estimado leitor de O Ponney apanhar o carro e conduzir vinte minutos até à praia de Palheiros e Zorro, vai encontrar o cenário ideal de veraneio. Apesar de o rio ter tentado levar tudo à frente nas tempestades do início do ano, a Câmara Municipal fez questão de abrir os cordões à bolsa para colocar nadadores-salvadores impecavelmente fardados, reposição de areia fresca para estender a toalha sem espetar pedras nas costas e um bar a funcionar para garantir o Sumol fresco ao final do dia. Ali, o arranque da época balnear parece saído de um panfleto do Turismo de Portugal. Há regras, há apoio e há funcionários no terreno. É o verdadeiro oásis do Concelho de Coimbra, onde a única preocupação do cidadão é não apanhar um escaldão.


O choque térmico acontece quando voltamos à cidade e tentamos dar um mergulho no Rebolim. No papel e no Instagram oficial do Município, as duas praias são irmãs gémeas unidas pelo mesmo nível de "excelência ambiental".


Na realidade prática, o Rebolim aparenta ser mais como praia selvagem. Enquanto o vereador com o pelouro do Ambiente passeia a comitiva para verificar as estruturas de apoio, os banhistas locais arriscam-se a disputar o escasso areal com colónias de gaivotas e patos territoriais. Num ambiente de completa sustentabilidade.


Nadadores-salvadores?
- Existem, mas a sensação é de que, se alguém precisar de ajuda, o salvamento pode ficar condicionado até que se verifique se o nadador tem o respetivo averbamento de funções assinado pelo diretor de departamento.


A grande comédia estival do Rebolim resume-se à mítica questão das espreguiçadeiras e do mobiliário urbano. Em qualquer praia decente, o mobiliário serve para as pessoas se deitarem. No Rebolim, as espreguiçadeiras parecem exigir um "visto prévio do diretor de departamento" e um requerimento em triplicado antes de se conseguir ajustar a inclinação do encosto. É a burocracia do Mondego no seu melhor, para se conseguir um chapéu de sol ou um apoio digno desse nome, quase que é preciso preencher uma folha de cabimento orçamental e submetê-la à aprovação da Assembleia Municipal.


Os serviços de Marketing da Câmara insistem que está tudo mapeado, planeado e fiscalizado até ao final de Setembro, mas quem lá vai percebe que a única coisa verdadeiramente rápida no local é a velocidade com que a corrente do rio leva as promessas do executivo.


No final do dia, a "Guerra da Bandeira Azul" expõe a velha máxima da gestão coimbrã: há dinheiro e rapidez para intervir nos postais ilustrados mais afastados, mas a praia que fica à porta de casa da maioria dos estudantes e munícipes funciona à base do regresso à, quase, natureza selvagem.


É necessário explicar que facto de o Rebolim ser uma praia balnear mais recente e de cariz "urbano-selvagem" (sem edifícios de alvenaria ou bares fixos) para que qualquer pessoa possa testemunhar um certo abandono, mas partilha das mesmas garantias sanitárias, ecológicas e de segurança rodoviária que Palheiros e Zorro.


Resta aos banhistas do Rebolim continuar a estender a toalha em cima da erva, partilhar as sandes com a fauna local e rezar para que nenhum fiscal camarário venha exigir uma licença de ocupação de espaço público por estarem deitados ao sol. Se o calor apertar muito, o melhor é mesmo pedir um despacho com caráter de urgência.


FG
12-06-2026