PARA PERCEBER COMO FUNCIONAM OS PARTIDOS

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Para percebermos como funcionam os partidos que se propõem a governar a nossa comunidade (região ou país), o leitor comum precisa, antes de mais, de se munir de um bom par de óculos que desmontem o ilusionismo. Acontece em quase todas as forças políticas. Embora o militante ou simpatizante mais fervoroso prefira jurar de pés juntos que no seu partido de eleição a ética é imaculada e que a democracia interna é uma máquina oleada a engenharia financeira e a milagres estatísticos que fariam inveja aos santos.

O caso que agora anima os bastidores da Federação de Coimbra do Partido Socialista, envolvendo figuras históricas como António Campos, Américo Batista, Pedro Coimbra e Vítor Batista, serve de manual perfeito para desmistificar este fenómeno que, na verdade, é tão transversal à nossa política como o pastel de bacalhau.

A denúncia urgente enviada à liderança nacional aponta para vícios que operam como regras de ouro na sobrevivência dos aparelhos partidários. O primeiro grande sintoma desta patologia é o "Milagre da Multiplicação das Quotas". Secções inteiras que passavam anos numa seca financeira franciscana registam, de repente, aumentos de pagamentos na ordem dos 300% em vésperas de eleições. É o clássico despertar dos chamados "sindicatos de votos", onde o livre exercício da cidadania dá lugar a um guião pré-pago por mão invisível, onde o militante recebe a quota misteriosamente regularizada e um telefonema sigiloso com as coordenadas exatas do boletim que deve colocar na urna.

Quem diz que a solidariedade social morreu, claramente não conhece os bastidores das distritais.

O outro pilar fundamental desta engrenagem reside na gestão elástica dos cadernos eleitorais, onde a regra da suspensão por falta de pagamento é tratada com uma tolerância quase divina. Militantes com mais de quatro anos de incumprimento, que deveriam por regra interna estar a ver as eleições no sofá, ganham o estatuto de autênticos "mortos-vivos" políticos, ressuscitando mesmo a tempo de influenciar o destino da comunidade.

Este controlo criativo garante que apenas os detentores de forte poder económico consigam singrar nas estruturas locais, sufocando à nascença qualquer tentativa de debate ou alternância democrática saudável.

Afinal, a política é um negócio caro e não é para amadores.

Perante o escândalo, os queixosos exigem auditorias e ameaçam com o bicho-papão do Ministério Público. No entanto, a resposta das lideranças centrais tende a seguir a tradicional e infalível doutrina da avestruz e remete-se o assunto para o "foro interno", sacode-se a água do capote e valida-se a papelada.

É assim, entre quotas caídas do céu, telefonemas de cabine e cadernos eleitorais que esticam mais do que pastilha elástica, que se desenha a anatomia do poder em Portugal. Um jogo de fidelidades com preço de tabela, onde quem paga a música decide sempre o sentido do voto, restando ao cidadão comum o privilégio de assistir à comédia... e pagar o bilhete no fim.

Esta é a situação do PS, mas poderia ser o de qualquer outro partido com assento na Assembleia da República. O nosso sentido crítico deve ser apurado para combater estas asneiras que, como bola de neve, rolam pequenas nos partidos e aumentam na descida para a região ou país.

JAG

Imagem de Daniel Henrique
12-06-2026