1929 - O BANQUETE ONDE SE PAGOU A CONTA DA PRÓPRIA FOME

Recuamos até ao ano da fundação de O Ponney: 1929.
Que também é o ano em que as Câmaras Municipais do país decidiram organizar a maior e mais masoquista homenagem da história pátria, formalizado com um banquete gigantesco em Lisboa, na Sala do Conselho de Estado, inteiramente dedicado ao Ministro das Finanças, António de Oliveira Salazar.
A ideia, na altura, foi considerada, genial, menos para O Ponney.
Juntaram-se os membros em peso do Governo da Ditadura Nacional para comer faustosamente, enquanto Salazar aproveitava o banquete para lhes pregar o maior sermão de fome de que há memória. O futuro ditador agradeceu o apoio dos municípios, verbalizado pelo Ministro da Justiça, Lopes da Fonseca, agradecendo Salazar com um discurso intitulado «Política de Verdade, Política de Sacrifício, Política Nacional».
Na prática, o auto considerado"Salvador da Pátria" explicou aos autarcas que, para o orçamento bater certo, o país teria de passar a broa dura e água. E os autarcas, de estômago cheio, aplaudiram a ditadura asfixiante que ali nascia. Se lermos o discurso hoje , com a liberdade de pensamento que a ditadura tentou carimbar, percebe-se que o país estava numa hecatombe funcional três anos após o golpe militar de 1926. Resultado de uma menor instrução da maioria das pessoas e da sua pouca, ou nenhuma, participação na vida política portuguesa.
A responsabilidade desse caos não era, só, dos últimos políticos da I República - como fez crer Salazar. Pois a maior responsabilidade era da péssima estrutura da Constituição de 1911. Mas sobretudo das consequências dos fantasmas da Monarquia que não incentivava a instrução aos portugueses. E, claro, do eterno "modo português de estar na vida"que é o de não intervir como cidadãos. Esse desporto nacional de comer (nem que seja ar) e calar - abriu as portas para a mais duradoura tirania do mundo.
Foi exatamente neste “brilhante Banquete da Fome” que se escutou em público, pela primeira vez, a frase que viria a formatar o Estado Novo: “Tudo pela Nação! Nada contra a Nação!”. Tradução livre de O Ponney: "Façam o que eu digo, calem o que eu faço".
Há quem confunda as geografias da ascensão de Salazar, mas a verdade é que o homem foi, no inicio do século XX, um influente professor de Finanças Públicas na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Embora já mandasse em Lisboa, Salazar recusou-se a largar o arrendamento da sua habitação em Coimbra até Dezembro de 1929. Há quem diga que foi um enorme apego à Lusa Atenas, mas nós suspeitamos que é só para não gastar dinheiro em mudanças.
Porém é aqui que entra o jornal O Ponney, pois nasceu precisamente antes da saída definitiva de Salazar de Coimbra. Antevimos o "ovo da ditadura" e começámos logo a empurrar o futuro ditador de Coimbra em direção à capital.
E o registo de O Ponney não mudou. Quase um século depois, O Ponney continua exatamente a fazer o mesmo: a empurrar ditadorzinhos de todas as formas e feitios.
Como adversários do nosso jornal temos a “Brigada do Reumático” e o grupo do "Chá das Cinco", pois como o progresso dá alergia a muita gente, O Ponney continua a carregar o fardo de aturar os críticos crónicos da “Brigada do Reumático” e do “Chá das Cinco”, que pautam sempre para mandar calar todas as críticas.
O Ponney nasceu no ano em que se incubava a ditadura de Salazar, como um jornal que entrou de rompante pelas pastelarias da moda em Coimbra, qual equídeo nervoso, e depara-se com a eterna “Brigada do Reumático”a chorar pelos velhos tempos entre uma queijada e um suspiro. Ao verem as nossas denúncias, abanaram, ainda abanam as suas cabecinhas pequenas, assustadoramente vazias, e levantam um dedo trémulo e indignado:«Parece impossível! Ora uma destas! Vejam como este jornal tanto ataca Coimbra e a Nação!», dizem os dinossauros do costume.
Para esta malta, o lema salazarista foi atualizado para: “Tudo por Coimbra, nada contra Coimbra!”. O que, traduzido do dialeto da hipocrisia, significa apenas uma coisa: “Se me criticais o mofo ou o tacho, estais contra a cidade”.
A “Brigada do Reumático” vai mudando de rostos com as décadas, mas o lamento é o mesmo: “No meu tempo é que era! O Ponney já não é o mesmo!”.
E é verdade! Pois não.
Está mais atento, mais incómodo e sem qualquer medo de fazer pensar quem ainda conserva neurónios funcionais para defender a Liberdade e a Democracia.
Seguimos com uma visão jornalística de 360 graus. Os ângulos obtusos deixamo-los para os salões de chá.
Por Redação O Ponney | Série Especial: 5 Épocas, 5 Coices na Ditadura
JAG
5-06-2026
