1974 — O ANO EM QUE AS CADEIRAS DEIXARAM DE REPROVAR E PASSARAM A MANDAR

No terceiro capítulo da nossa viagem no tempo, aterramos no ano em que a revolução dos cravos fez com que os estudantes de Coimbra descobrissem o nirvana académico.
O processo foi fulminante, no dia seguinte ao 25 de Abril, a Universidade percebeu que a melhor forma de celebrar a Liberdade era suspender imediatamente todas as aulas. Afinal, quem precisa de estudar sebentas de Direito Romano quando se pode fazer história viva nas ruas?
O ano letivo de 1973/1974 ficou eternamente gravado no coração dos revolucionários (ou dos cábulas) pelas famosas "passagens administrativas". Que até continuaram para outros anos. Foi o milagre da multiplicação das notas positivas, onde o foco absoluto da comunidade estava na reorganização política da instituição e no preenchimento de pautas por decreto divino da democracia.
As salas de aula fecharam as portas à matéria e converteram-se em vibrantes fóruns e assembleias abertas. Ali, discutia-se o futuro do país, o papel social da universidade e, com sorte, se o bar da faculdade devia baixar o preço da café. Inspirados no legado heróico da Crise de 1969, os estudantes decidiram que estava na hora de fazer a limpeza da primavera.
Através de comissões formadas nas faculdades, os docentes identificados com o regime fascista ou apanhados a piscar o olho à PIDE/DGS foram denunciados de rompante e corridos das suas cátedras. Foi o chamado "saneamento básico" da docência, se cheirava a mofo salazarista, ia borda fora sem direito a recurso.
A grande joia da coroa desta revolução estudantil foi a introdução do modelo de gestão paritária.
Pela primeira vez na história da Lusa Atenas, as decisões administrativas e pedagógicas passaram a ser votadas com igual peso entre professores catedráticos e estudantes. Era o sonho da República no seu melhor, onde o voto de estudantes valia exatamente o mesmo que o de um reitor. Onde a discussão iniciava e explicava aos estudantes o que fazia ou não sentido. Numa discussão lógica.
Os estudantes sentiam que eram ouvidos e participavam com mais empenho no campus.
Mal sabiam eles que a burocracia é um monstro silencioso que come cravos ao pequeno-almoço.
Hoje, O Ponney, voltou a dar um salto temporal até à atualidade de 2026 e o cenário é um balde de água fria com gelo.
Aquele modelo paritário clássico e romântico do pós-25 de Abril já não funciona nas decisões administrativas e governativas da vetusta Universidade de Coimbra.
A estrutura de poder no ensino superior português foi profundamente alterada e domesticada ao longo das últimas décadas, enquanto os estudantes vinham para a rua fazer manifestações contra as propinas, a burocracia comia os cravos com grande alegria. Morreu o direito de discussão na UC e o que os estudantes pensam não vale nada.
De facto, o atual modelo de governação da Universidade de Coimbra, regulado pelos Estatutos da instituição revistos há pouquíssimo tempo, em Fevereiro de 2026, estabelece uma clara e escandalosa assimetria de representação nos órgãos de decisão.
O Ponney faz questão de lembrar, com a sua habitual vénia satírica, que os estudantes, depois de conquistarem o céu em 1974, acabaram por perder o pio e ver as suas asas cortadas pelas canetas dos burocratas modernos.
Enquanto em 1974 e seguintes, a Brigada do Reumático agarrava-se desesperadamente ao seu plágio sagrado: “Tudo por Coimbra, nada contra Coimbra!”, que nesta fase revolucionária significava: "Por favor, devolvam-nos a censura e as reprovações em massa, que a malta jovem a votar dá-nos cabo da tensão arterial", em 2026, a velha Brigada do Reumático retoma o poder e coloca tudo onde estava antes do 25 de Abril de 1974, no momento em que os estudantes berravam contra as propinas. Ficando a discussão fechada num ponto, a tirania vai fazendo o ninho atrás das orelhas dos estudantes universitários.
Pois em 2026, os novos rostos da Brigada do Reumático sorriem beatificamente nas mesmas pastelarias da moda, suspirando de alívio ao lerem os estatutos de Fevereiro de 2026: "No meu tempo é que era... mas valha-nos Deus que os doutores de hoje já puseram os miúdos na ordem! O Ponney é que continua a não respeitar o mofo institucional!".
- Pois não!
O Ponney mantém os olhos bem abertos, registando a ironia histórica de quem gritava "o povo unido jamais será vencido" e acabou vencido por um regulamento de secretaria. Seguimos com a nossa visão jornalística de 360 graus, porque para ver a perda de poder dos estudantes não são precisos ângulos obtusos, basta ler as atas do conselho geral.
Por Redação O Ponney | Série Especial: 5 Épocas, 5 Coices na Ditadura
FG
05-06-2026
