2004 — O ESTÁDIO MILIONÁRIO DOS DOIS JOGOS E DAS PISCINAS DO MONDEGO

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No quarto capítulo da nossa saga de aniversário, sintonizamos a máquina do tempo na frequência do maior delírio de grandeza que a Lusa Atenas já testemunhou para o Campeonato Europeu de Futebol (Euro 2004) e o seu monumento ao desperdício, o Estádio Municipal Cidade de Coimbra.

A coisa começou com pompa e circunstância a 27 de Setembro de 2003. A nova e reluzente infraestrutura abriu as portas com um concerto dos lendários The Rolling Stones . Provando que, na verdade, bandas fofinhas como os Coldplay estão muito longe de ser o maior acontecimento internacional de Coimbra, por muito que a propaganda moderna queira reescrever a escala do rock.

O estádio foi remodelado e ampliado com um único grande propósito, para receber as grandes potências do futebol europeu. E recebeu!

Um total impressionante de... dois jogos na fase final.

Enquanto Lisboa garantiu dez partidas e o Porto arrecadou cinco, os adeptos de Coimbra puderam deliciar-se a ver a Suíça ser atropelada pela Inglaterra a 17 de Junho de 2004 e, quatro dias depois, a mesma Suíça a tentar a sua sorte (com azar) contra a França.

Duas futeboladas e acabou-se o Euro. Já a derrapagem foi de ouro e a herança bancária veio até este ano de 2026. Para que a cidade pudesse ser o cenário destes dois jogos históricos, a fatura foi tudo menos modesta. O orçamento inicial da remodelação apontava para uns contidos 15 milhões de euros.

Contudo, como a costumeira da falta de transparência política exige sempre destaque, a empreitada principal disparou logo para os 40 milhões, derrapando alegremente até atingir os 53,2 milhões de euros nas contas globais de fecho do projeto.

A piada atinge o seu auge neste ano de 2026. Se o leitor pensa que essa fatura já prescreveu, desengane-se. A Câmara Municipal de Coimbra (CMC) ainda se encontra a pagar a dívida decorrente da remodelação do estádio do Euro 2004. Graças ao maravilhoso mundo da engenharia financeira, com a transferência do financiamento para novas instituições bancárias e o consequente alongamento dos prazos de reembolso, as tranches de pagamento desta herança continuam firmes, especadas e indexadas ao Orçamento e Grandes Opções do Plano (GOP) do Município para 2026.

E onde está o verdadeiro humor disto tudo?

É que para resolver o problema crónico das cheias do rio Mondego, a autarquia encolhe os ombros e diz que não tem dinheiro. O resultado está à vista de todos, nas alturas das grandes chuvas, o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha continua a transformar-se, com regularidade olímpica, numa autêntica piscina medieval.

Também os bancos continuam a receber as cheias de diheiro público no dízimo do betão do Euro 2004.

Dos Coldplay aos Guns N' Roses a verdade é que o tacho dos eventos privados também foram beber ao erário público.

Como Coimbra tem uma memória curta e uma carteira estranhamente generosa para o setor privado, o palco milionário continuou a servir de poço sem fundo para polémicas. Em Maio de 2023, o anterior executivo municipal, liderado por José Manuel Silva, decidiu apoiar de mãos largas os Coldplay, injetando um generoso subsídio público de 440 mil euros diretamente na conta da promotora do evento, tudo isto embrulhado em falhas graves de segurança nas entradas do estádio.

Mas a saga do despesismo rockeiro não ficou por aí. Já mais recentemente, a 6 de Junho de 2025, o Estádio Municipal Cidade de Coimbra abriu os portões para receber os Guns N' Roses.
- Adivinhem o que aconteceu?

Mais uma acesa polémica em torno do apoio financeiro público da Câmara Municipal para viabilizar um evento estritamente privado. Abre-se a torneira do erário público para as estrelas mundiais e fecha-se o estádio ao desporto o resto do ano.

Será que Coimbra deixou de ser uma Lição?

O Ponney faz questão de recordar que a Lusa Atenas devia, pelo menos uma vez na vida, aprender com os seus próprios erros. Desde a monumental derrapagem para um estádio fantasma que só serviu para duas partidas, passando pelos subsídios milionários a promotores privados, até ao abandono completo desta infraestrutura no dia a dia, parece que ninguém aprende absolutamente nada na cidade universitária.

Como é evidente, nas pastelarias da moda, o Grupo do Chá das Cinco, dos coimbrinhas, assiste a tudo isto enquanto se deleita com o chá de dedinho levantado. Ao lerem as denúncias d’O Ponney, abanam as suas cabecinhas pequenas, apontam o dedo trémulo:«Parece impossível! Ora uma destas! Atacar os concertos e o progresso da cidade? Isto é uma ofensa a Coimbra e à Nação!», ciciam os dinossauros locais, repetindo o lema "Tudo por Coimbra, nada contra Coimbra".

Para estes ilustres críticos, criticar o buraco financeiro do município equivale a um crime de lesa-pátria. No fundo, o lema deles significa apenas: "Não questionem a dívida do estádio nem as cheias no mosteiro, desde que a malta possa tirar uma selfie com o Axel Rose ou com o Chris Martin".

Com este panorama de amnésia coletiva e finanças em contramão, a redação de O Ponney, que mantém os olhos bem abertos e uma visão jornalística de 360 graus, deixa a pergunta legítima no ar: com tanta incompetência a ser repetida em loop, será que Coimbra deixou de ser uma lição e passou a ser apenas uma fatura bancária a prazo?

Os ângulos obtusos que respondam, se conseguirem pagar a conta.

Por Redação O Ponney | Série Especial: 5 Épocas, 5 Coices na Ditadura (e na Incompetência)
AG
05-06-2026