COIMBRA EM MEMÓRIAS DE UMA CASA QUE NUNCA FOI MINHA

Existe uma magia enorme associada à ideia de ir estudar para Coimbra. Quando se fala entre família e amigos o cenário é digno de cinema: convívios em bares, noitadas académicas de arrombo e residências de estudantes que, de certa forma, imaginamos que funcionam como uma verdadeira comunidade académica.
No entanto, partimos da terrinha com a casa às costas, sonhos e alguma ingenuidade e chegamos à tão desejada cidade dos estudantes e aí percebemos que o único elemento comunitário das residências é o medo coletivo de deixar uma pizza sozinha na cozinha.
Cozinhar na residência é uma experiência completa. Primeiro limpamos o que claramente não sujamos. Depois cozinhamos e, a seguir, rezamos para que a comida chegue ao prato. Ou então optas por coisas saudáveis, estas nunca são roubadas. Na residência, quem tem uma pizza guardada é como o equivalente académico a possuir um diamante em bruto. A estratégia dominante é simples: comprar e consumir imediatamente. Quem arrisca armazenar comida acredita, no fundo, em milagres. E Coimbra já tem tradições suficientes.
Existe ainda outra expectativa: o colega de quarto. Aquela coisa que quando chegamos nunca sabemos o que nos vai calhar. Esperamos companheirismo, talvez amizade, alguém com quem seja fácil conviver. A realidade? Um estudo sociológico constante em tempo real. Em casos raros existe amizade, mas normalmente o colega de quarto é alguém distante, com uma relação teórica mas nunca prática com a higiene, que contribui também para a biodiversidade da cozinha e ainda reclama.
E no meio disto tudo, aprendemos. Aprendemos a conviver, a tolerar e, sobretudo, a redefinir o conceito de “espaço comum” como um território onde tudo é de todos. No fundo, mais do que uma residência, acaba por ser um exercício diário de paciência e adaptação aos outros.
O estudante deslocado vem com uma perspetiva de organização, regras claras, convivência saudável e amizade. Na prática, encontra-se perante um sistema super inovador de gestão doméstica com duas formas de governação em que ou “Esta semana o quarto X limpa a cozinha a semana inteira” ou “Hoje o residente X limpa a cozinha”. E atenção: se não utilizares a cozinha e não quiseres limpar, tens de provar que não a usas, mas como? Uma semana inteira de serviço numa cozinha que parece estar permanentemente em modo “pós-apocalipse”. A rotatividade existe, mas a limpeza, nem tanto.
Falando agora da modernização das residências, temos o novo sistema de entrada cheio de tecnologia. Cartões eletrónicos, tudo muito moderno, até que, pode falhar a eletricidade e ninguém entra nem sai, perdes o cartão e rezas para que o teu colega esteja em casa ou é fim de semana ou depois das 17h e ninguém ajuda porque “não se trabalha”. Acaba por resultar numa tecnologia de ponta que transforma o regresso a casa numa experiência de escape room mas sem entrada nem saída garantida.
Pelo menos há um ano existia ainda outra questão: o Wi-Fi. Mesmo com o router dentro do quarto, apanhar internet é uma espécie de milagre moderno. Falhas durante meses, o suficiente para testar a saúde mental de qualquer estudante. Estudar online? Só com fé e talvez com a internet do IPN.
Perante todas estas questões, roubos de comida e até de dignidade os estudantes esperariam uma intervenção firme, mas não. Não existem câmaras, não há soluções concretas, apenas acompanhamento silencioso. Nada muda, mas existe sempre aquela esperança vaga de que um dia, talvez, algo venha a mudar.
Viver numa residência pública em Coimbra continua a ser, sem dúvida, uma experiência marcante. Não exatamente pelos motivos idealizados, mas pela capacidade de adaptação e convivência que exige. Aprendemos a desconfiar, a comer depressa, a lidar com os outros e a respeitar o poder que uma chave, ou um cartão, pode ter.
No final, a verdadeira tradição académica não é a capa e a batina, mas a arte de sobreviver e adaptar-nos ao quotidiano. Quando tudo termina, ficam as memórias. Podem não ser as melhores, mas dão sempre para rir. E, no fundo, é isso que levamos connosco: histórias que ninguém acredita, mas todos os que lá viveram entendem e talvez seja essa a única coisa que nunca ninguém nos consegue roubar.
Isis
17/04/2026
