EM COIMBRA O FUTURO É A IA, MAS O PRESENTE É A REPOSIÇÃO DE IOGURTES

IOGURTES 1

 

Quem vive em Coimbra assiste a um fenómeno sociológico digno de um episódio de uma qualquer série absurda. De um lado, temos o Estado português, num acesso de otimismo tecnológico, a oferecer 750 euros para que qualquer cidadão aprenda Inteligência Artificial antes que os robôs dominem o mundo ou, pelo menos, ajude a contabilidade da contagem das sardinhas na Feira Popular.

Por outro lado temos a realidade crua dos classificados do OLX, ou dos jornais diários, onde o mercado de trabalho de Coimbra parece ignorar solenemente o Vale do Silício para se focar no Vale do Mondego, onde a competência mais requisitada continua a ser a capacidade de carregar grades de cerveja, vender “gato-por-lebre” ou repor iogurtes líquidos com a precisão de um cirurgião.

É uma esquizofrenia económica fascinante. O IEFP (Instituto do Emprego e Formação Profissional) quer que o zé-povinho faça "Vibe Coding", uma expressão que soa a programar enquanto se ouve música relaxante e se espera que o computador ganhe consciência própria por pura simpatia.

O objetivo é que 40% das competências humanas mudem nos próximos cinco anos. O problema é que, em Coimbra, as competências que realmente contam não mudam desde a fundação da nacionalidade, exigindo-se a simpatia no balcão, pernas de aço para horas e horas a servir com uma bandeja e a paciência de um santo para explicar a turistas que a Universidade não é o castelo do Harry Potter.

Imagine-se o cenário de um jovem conimbricense que aproveita o Cheque-Formação + Digital. Estuda Análise de Dados, domina o SQL e sabe tudo sobre redes neuronais. Munido deste saber arcano, abre o portal Indeed e depara-se com a oferta da sua vida como: Operador de Armazém em Taveiro, com direito ao fabuloso Salário Mínimo Nacional e a possibilidade de trabalhar aos fins de semana para não perder o ritmo.

É o triunfo da inteligência artificial sobre a sobrevivência orgânica. O recente formado poderá, finalmente, usar algoritmos preditivos para calcular exatamente a que horas o camião do lixo passa na Baixa, enquanto ganha 820 euros brutos, valor que mal chega para pagar um quarto com humidade e vista para um estendal.

O contraste é tão gritante que chega a ser poético. Enquanto a escola "Code for All" ensina a criar aplicações sem saber programar, os cafés da Portagem continuam a precisar de pessoas que saibam servir bicas sem saber chorar.

Coimbra, a cidade universitária, está a criar a geração de repositores de prateleira mais qualificada do planeta. Teremos assistentes de “call center” capazes de discutir a singularidade tecnológica com o cliente enquanto tentam convencê-lo a aderir a um tarifário de telemóvel que o próprio robô já considerou obsoleto.

No fundo, Coimbra é o laboratório perfeito para esta nova era. Onde mais poderíamos encontrar alguém a fazer um curso online de Inteligência Artificial em horário pós-laboral, pago pelo IEFP (com inscrição até Junho) para depois aplicar esses conhecimentos na otimização da rota de entrega de comida numa Scooter de 2005?

É a "Vibe" de um país que quer estar na vanguarda do futuro, mas que ainda não resolveu o pequeno detalhe de como pagar a renda no presente. No final, a única inteligência verdadeiramente artificial em Portugal é a que nos faz acreditar que, com um curso de 750 euros, vamos todos ser consultores em Silicon Valley, quando na realidade, na melhor das possibilidades, é encontrar um emprego numa caixa de hipermercado em Coimbra.

JA
17-04-2026