COMPROMISSO? SÓ COM O BANCO

Terminar um curso, arranjar emprego, sair da casa dos pais, construir uma relação estável e começar a pensar num futuro próprio foram, durante muitos anos, etapas quase automáticas da vida adulta, como um manual de instruções que já vinha incluído na nossa caixa. Atualmente, para muitos jovens, o manual parece ter sofrido pequenas alterações. Nos dias de hoje, o percurso mais viável é terminar o curso, procurar emprego, enviar cinquenta currículos, não obter respostas, voltar a enviar currículos e continuar em casa dos pais, seguindo neste ciclo vicioso.
Em Coimbra, onde milhares de alunos chegam todos os anos com a mochila cheia de sonhos e a carteira cheia de ar, a transição para a vida adulta tornou-se um desafio digno de uma escape room.
A cidade acolhe os estudantes como quem acolhe refugiados, com carinho, com café barato e com a promessa de que “aqui se faz o futuro”. O problema é que, quando a licenciatura termina, a capa é dobrada e o futuro, por vezes, faz as malas primeiro. Grande parte dos recém-licenciados olha para Coimbra com a mesma expressão de quem olha para um ex, “gostei muito de ti, mas não sei se isto ainda funciona”.
Ficar ou sair torna-se uma dúvida existencial, porque Coimbra ensina muito, mas a incerteza permanece. Porque, sejamos honestos, depois da licenciatura, Coimbra oferece condições suficientes para começar uma vida ou apenas condições suficientes para começar um estágio não remunerado e desenvolver um burnout?
É aqui que entra o vilão desta história: o salário mínimo português. Os jovens querem independência, mas entre rendas que parecem calculadas por alguém que acha que todos os jovens são herdeiros e ordenados que parecem definidos por alguém que nunca foi a um supermercado, a independência financeira parece ter deixado de depender apenas do esforço individual. Hoje, depende de sorte, contexto, contactos, subsídios e, em casos extremos, milagres.
E quando a independência falha, o amor tropeça com ela. Porque é muito bonito falar de relações estáveis, viver a dois, construir famílias e todas essas coisas que ficam bem nos filmes românticos. Aparentemente, esqueceram-se de mencionar a renda, a eletricidade, a internet, a água e o preço de um simples café.
Tentar planear uma vida amorosa quando se ganha 920 euros e um quarto custa 450 euros, enquanto um T1 ronda, no mínimo, os 750 euros, é quase um cenário de humor. Viver a dois exige mais saldo disponível do que química. Há quem diga que muitos jovens têm medo do compromisso; na prática, o medo é apenas da fatura da EDP.
O romantismo existe, só que as relações modernas parecem quase entrevistas de emprego. “Onde te vês daqui a cinco anos?”, “tens objetivos de vida?”, “pretendes construir família?”. E, algures entre perguntas, surge a mais importante de todas, “por acaso tens casa própria ou pais com um anexo disponível?”. É a poesia moderna.
No fim, não se trata de falta de vontade, nem de medo de crescer, nem do tão falado pânico ao compromisso. Trata-se de viver num país onde o amor continua grátis, mas o resto da vida ficou absurdamente caro. Talvez por isso tantos jovens pareçam adiar relações sérias, a independência ou qualquer projeto de futuro, não porque lhes falte maturidade, mas porque crescer começou a parecer um serviço premium com uma subscrição mensal demasiado cara.
Isis
22/05/2026
