COIMBRA A CAPITAL DA EXPORTAÇÃO

Coimbra gosta de se apresentar como uma cidade moderna, competitiva, cheia de futuro e inundada por jovens que chegam para ficar. A realidade, porém, parece mais um daqueles filmes em que toda a gente chega entusiasmada à cidade no início, mas no final acaba por fugir. Entre salários baixos, rendas assustadoras e uma sensação de estabilidade cada vez mais difícil de alcançar, Coimbra tem-se tornado uma especialista na exportação de jovens.
Mas talvez o problema esteja na estratégia. Ou melhor, na falta dela.
Enquanto Coimbra continua a tentar perceber como reter os jovens na cidade, existem exemplos que mostram abordagens diferentes. O Recife, no Brasil, é um desses casos, não como um paraíso tropical, mas como um exemplo concreto de uma estratégia tecnológica bem construída.
A cidade percebeu algo importante, atrair e manter jovens não depende apenas de criar emprego direto, mas também de investir em tecnologia, inovação e oportunidades. Através do Porto Digital, um dos maiores polos tecnológicos do Brasil, transformou o centro histórico num espaço de inovação e apostou em programas como o Embarque Digital, que oferece milhares de bolsas de estudo na área tecnológica. O resultado é relativamente simples, o Recife tornou-se um Polo de Tecnologia da Informação, que acabou por atrair empresas e permitiu que muitos jovens trabalhassem a partir dali não só para as maiores cidades do Brasil, como para o resto do mundo.
No entanto, se por um lado o Recife atraiu jovens e empresas para a cidade na área da tecnologia, por outro lado, também começou a enfrentar problemas sérios relacionados com habitação, segurança e infraestrutura. O custo de vida tem aumentado, a pressão imobiliária continua a crescer e a criminalidade permanece uma das grandes preocupações da cidade.
Talvez a lição a retirar não seja a ideia de uma cidade perfeita, porque ela provavelmente não existe. A verdadeira lição é outra: investir em oportunidades e criar razões para ficar. E talvez seja aqui que Coimbra falha, pois continua a tentar vender-se como uma cidade universitária, quando podia vender-se como uma cidade de futuro. Uma cidade para viver, trabalhar e ficar.
O jovem estuda aqui, forma-se aqui, cria amizades aqui, apaixona-se aqui, mas depois percebe que talvez precise de construir o futuro noutro lugar. E o problema já não é apenas emprego. Hoje existe mais oferta de trabalho do que em muitos períodos anteriores. O problema parece estar em tudo aquilo que vem depois.
Como construir independência quando o salário desaparece rapidamente entre renda, contas e despesas? Como construir uma relação estável quando duas pessoas passam metade do tempo a tentar perceber em que cidade vão viver no próximo ano?
O amor moderno já enfrenta aplicações de encontros, relações rápidas e medo do compromisso. Acrescentar instabilidade financeira e geográfica transforma qualquer relação numa espécie de exercício de sobrevivência.
Coimbra poderia ser uma cidade onde se estuda, se trabalha remotamente, se vive com qualidade e se constrói estabilidade sem precisar de fazer contas ao cêntimo até ao final do mês. Poderia ser uma cidade onde o futuro não é apenas uma promessa vaga, mas uma realidade possível.
Porque beleza nunca foi o problema. Coimbra é bonita. Tem história, cultura, estudantes, movimento e vida. O problema é que ninguém constrói futuro apenas com paisagens. Uma vista bonita ajuda, mas dificilmente paga a renda.
Porque, neste momento, Coimbra parece que mantém uma relação superficial com os seus jovens, encanta-os no início, promete muito e depois, abandona-os. E a ironia é esta, a cidade passa anos a formar talento e meses a perdê-lo. No fim, talvez Coimbra não esteja a sofrer de falta de jovens. Talvez esteja simplesmente a especializar-se na exportação deles.
Isis
22/05/2026
