Editorial 15/05/2026

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A ERA DOS IMATUROS DISCRIMINADORES

Há qualquer coisa de profundamente contemporâneo em deixar uma criança sozinha com um ecrã durante oito horas por dia e depois ficar muito surpreendido quando ela aprende ética através de comentários anónimos, influencers e vídeos de quinze segundos onde humilhar alguém é considerado “conteúdo”.

O mais preocupante é que a discriminação, hoje, já não precisa sequer de ideologia; basta falta de tempo, dado que é demasiado ocupado na exigência da sobrevivência. Os pais trabalham até à exaustão para pagar explicações aos filhos que nunca explicam o essencial, a de que existir em sociedade implica ter sentido crítico numa base de perdoar-se para perdoar.

Entretanto, fomos sofisticando a linguagem. Já ninguém é mal-educado: é “autêntico”. Já ninguém é cruel: “diz as verdades”. Já ninguém é preconceituoso: “tem opinião”. A liberdade individual transformou-se numa espécie de passe VIP para atropelar o próximo com convicção moral. O respeito pelo outro passou a ser visto como censura emocional, uma maçada burocrática entre duas explosões de ego.

E depois há os exemplos magníficos que vêm de cima. Discursos internacionais sobre direitos humanos feitos por líderes que bombardeariam o próprio espelho se isso lhes desse vantagem estratégica. Empresas que celebram a diversidade em campanhas publicitárias enquanto despedem pessoas por algoritmos. Governos que falam de inclusão com a mesma naturalidade com que executam exclusões. Nunca houve tanta pedagogia das boas práticas acompanhada de uma tão exuberante coreografia de más práticas. O jovem aprende depressa que a ética é importante, desde que não atrapalhe o negócio.

O Ensino Superior, por seu lado, cumpre a sua missão histórica de fabricar especialistas altamente competentes na arte de obedecer. Produz-se gente capaz de programar inteligência artificial, otimizar mercados, calcular riscos financeiros e construir foguetes reutilizáveis — tudo isto sem o incómodo de perguntar “para quê?” ou “a quem serve?”. O sentido crítico tornou-se uma espécie de alergia institucional, por tolera-se em teoria, desde que não faça barulho. O aluno aprende na sala que pensar demasiado compromete uma ilusão de carreira.

Ainda está bem fresca a proibição feita pela Reitoria da Universidade de Coimbra quando, sem discutir com a comunidade, os prós e contras do consumo de carne de vaca. Independentemente da medida estar certa ou errada. Assim se consolida a grande crença na nova ditadura contemporânea, onde tudo é permitido por quem tem poder. Por isso cumpre-se sem sentido crítico até se ter poder - depois é que se pode ser ditador à vontade. Processo de ódio a que também não é estranho o caso polémico na UC.

Assim damos início ao artigo « DOUTORADOS EM MACHISMO» para além de xenofobia. E talvez seja aqui que Hannah Arendt volte à sala, cansada mas pontual, para nos lembrar da banalidade do mal. Não o mal épico, operático, com vilões carismáticos e música dramática. Não. O mal administrativo, automático, distraído, feito por pessoas demasiado ocupadas para pensar e demasiado convencidas para duvidar. O mal de quem carrega em “partilhar” antes de carregar na consciência.

A tecnologia democratizou o poder, o que seria excelente se tivéssemos democratizado também a maturidade. Mas não! O artigo « DOMESTICAÇÃO DO CALOIRO» é apenas um processo idêntico ao aluno que cede na banalidade do mal até poder ser Professor ou, com mais poder: reitor. O processo de ódio aumenta como bola de neve a descer ( e bem inclinada na ética) por encosta de montanha.

A verdade é que demos megafones emocionais a adolescentes morais de todas as idades. Uma espécie de super-herói da irresponsabilidade doméstica que, mesmo na aparência de pessoa “politicamente correta” escondem as ações mais vis. O artigo «A VIDA SEXUAL DA MISOGINIA» traz-nos uma realidade embrulhada em tabu.

O artigo «CRÓNICA DE UMA PELE QUE FALA» aborda como se sente, na pele, a discriminação de se ser quando não ofende ninguém. Uma crónica na primeira pessoa de Isis.

Porque a maioria já nem acredita no perdão. Cancelamos, arquivamos, etiquetamos. Uma falha transforma-se em identidade perpétua. O erro deixou de ser humano para passar a ser hereditário. Não se permite que as pessoas sejam mais do que o que se vê. Neste caso trazemos o artigo escrito por Henrique Daniel com o título « A SOCIEDADE QUE USA FRALDAS», escrito na primeira pessoa de um neurologicamente diferente.

Depois temos a tira da Dani.

Nos artigos de opinião temos o primeiro artigo de opinião sobre a OAF, a Briosa, escrito pelo meu amigo João Maria Antunes. Que é sócio da Académica há mais de duas décadas e antigo estudante da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Depois de muito conversarmos lá o consegui convencer a escrever sobre a OAF. Obrigado Dr. Antunes.
A seguir temos a nossa amiga sempre presente Manuel Jones que nos trouxe a celebração de um dia importante.

Fechamos os artigos de opinião com a visão generalizada feita a Coimbra pelo amigo Otávio Ferreira.

Muitos outros artigos, nas nossas diversas áreas, poderão ser explorados pelos nossos leitores.

Bom fim de semana e boas leituras;


José Augusto Gomes
Diretor do jornal digital O Ponney