COMO EM COIMBRA SE FAZ DESAPARECER 60 MILHÕES COM ELEGÂNCIA CULTURAL

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Há duas formas de perder dinheiro público em Portugal, uma é rápida e escandalosa; a outra é o Convento de São Francisco (CSF), que escolheu o caminho mais sofisticado o lento, institucional e com programação cultural ocasionalmente invisível.

Falamos de um dos maiores investimentos culturais de Coimbra, construído com a mesma facilidade com que se constroem catedrais e com o mesmo ritmo com que depois se tenta pagar.

Começou modesto na previsão de custos para a construção de apenas 20 milhões de euros. Hoje, com a naturalidade de um orçamento municipal em Portugal, estamos em 42 milhões. E porque parar em números redondos é coisa de principiantes, adiciona-se ainda cerca de 2 milhões por ano em manutenção.

O resultado técnico é um pequeno “detalhe cultural” de aproximadamente 60 milhões de euros. Ou, como se diz na linguagem oficial é “um equipamento estruturante com elevado potencial estratégico”.

O milagre do dinheiro que não acaba, mas apenas muda de bolso. O CSF tem uma qualidade rara, pois consegue ser simultaneamente espaço cultural e fundo sem fundo.

É como um poço sem fundo, mas com palco.

E a grande questão filosófica da cidade passa a ser - “como é que um espaço tão caro consegue, ao mesmo tempo, precisar sempre de mais dinheiro e de menos perguntas?”

O concurso que existiu, depois não existiu, depois quase existiu. Para resolver o problema estrutural, decidiu-se fazer algo radical que era o de contratar um programador cultural. A ideia era perigosa, pois 36 mil euros por ano para alguém que pudesse, eventualmente, programar cultura num equipamento cultural.

Uma proposta claramente extravagante num contexto onde o silêncio orçamental é mais valorizado do que a programação artística. O concurso foi lançado. Depois foi explicado. Depois foi reinterpretado. Depois foi cancelado. Tudo isto com a fluidez típica de quem gere cultura com base na meteorologia financeira do dia.

Motivo oficial foi o da contenção de gastos.

Motivo não oficial é que, alegadamente, o universo a testar a nossa capacidade de acreditar em explicações administrativas sem rir. Do júri de cinco pessoas na teoria, três são as que se conhecem na prática e zero de certezas.

O concurso tinha originalmente uma promessa elegante falada para a comunicação social em Coimbra que tudo engole e disseram «cinco elementos, com três externos ao município.»

Uma espécie de sonho de transparência cultural.

Na prática, o que apareceu foi brutalmente mais minimalista, com três elementos, todos internos. Um “faça você mesmo” institucional.

Nada tenho contra o talento interno, apenas contra a matemática criativa que transforma cinco em três com a leveza de um passe de mágica administrativo. E depois “não há necessidade de explicações” a quem paga este circo onde os palhaços são os próprios espetadores.

E há ainda o detalhe encantador, dois membros do júri ligados diretamente ao próprio CSF. O que, em linguagem técnica, se chama “ambiente controlado”. Em linguagem não técnica… bem, também se percebe.

Transparência cultural foi transformada numa instalação conceptual.

Outro detalhe curioso é que não foram divulgadas listas completas de candidatos nem pontuações detalhadas.

O que, na prática, transforma o concurso numa obra de arte contemporânea daquelas em que quem não entende não pergunta.

Composição sem dados visíveis (2025) usando os fundos públicos, decisões opacas e fé institucional, onde o público é convidado a interpretar o papel de palhaço. O programador fantasma e o diretor que nunca chegou a dirigir. O júri terá escolhido por unanimidade um programador cultural. Uma escolha sólida, consensual, moderna. Só que houve um pequeno detalhe burocrático: «o escolhido não chegou a saber formalmente que tinha sido escolhido… porque o concurso foi entretanto cancelado».

É brutal, este novo conceito de recrutamento com seleção retroativa não vinculativa.

Aqui nasce o grande enigma de Coimbra, onde não há 36 mil euros para contratar um programador cultural. Mas há 2 milhões por ano para manter o edifício a respirar.

Ou seja o problema não é o dinheiro. O problema é a direção do dinheiro, que parece ter autonomia própria.

A DGArtes e o curioso caso da porta que não se abre sozinha. Sem programador, o CSF fica também com dificuldades em candidatar-se a apoios da DGArtes. O que cria uma situação delicada: o equipamento precisa de financiamento, mas não tem estrutura para o pedir financiamento, porque não tem estrutura para existir plenamente como equipamento cultural. É um ciclo perfeito. Ou, tecnicamente, um loop administrativo infinito.

Conclusão que retiramos é que, em Coimbra, temos um muito caro Convento, cheio de perguntas e um silêncio muito bem financiado e escondido da vista de quem paga.

O Convento de São Francisco nasceu como símbolo de cultura, modernidade e ambição. Hoje, é também um símbolo de algo mais raro com a capacidade de transformar investimento público em perguntas sem resposta e respostas sem perguntas.

Quem tramou o CSF?
- Talvez ninguém.

Fica aqui o essencial de um espaço cultural magnífico, mas com uma gestão que parece uma peça experimental.

O problema é que ninguém conhece bem o enredo e a atual vereadora da Cultura, Margarida Mendes Silva, alegadamente, teima em esconder o que se anda a passar ou então anda a ser enganada pela responsável do CSF.

 

António Pinhas