COIMBRA COM REGULAMENTOS E OUTRAS FICÇÕES URBANÍSTICAS

maria julia

 

Se o meu ilustre Eça de Queirós, em vez de se ocupar das subtilezas do Conselheiro Acácio, tivesse sido compelido a procurar casa em Coimbra no século XXI, entrando por este emaranhado que o obrigaria a uma outra obra-prima, talvez, intitulada «O Drama do Arrendamento Impossível», onde a tragédia não residiria em amores ilícitos, mas na procura de rendimentos para pagar uma renda mensal.

A Câmara Municipal, porém, com aquele zelo administrativo que outrora produzia códigos, pareceres e ofícios com mais páginas do que uma Bíblia, decidiu enfrentar o problema da habitação com uma arma subtil, que é a suspensão parcial do Plano Diretor Municipal. E fá-lo com uma elegância quase literária, separando o que é urgente do que é meramente necessário, como quem distingue, num baile, entre o cavalheiro que convida para dançar e o que se deixa encostado à parede, aguardando melhor ocasião.

Hummmm...pois!

Diz-se, com gravidade técnica, que a medida visa revitalizar as frentes ribeirinhas do Mondego, promover habitação acessível e incentivar o investimento. Ora, qualquer cidadão de espírito minimamente observador, ou simplesmente alguém que tenha tentado alugar um T1 sem vender previamente um rim, saberá que a palavra “acessível”, em matéria imobiliária, adquiriu um valor quase metafísico. É acessível, sim, mas apenas a quem dispõe de rendimentos que fariam corar um banqueiro de Zurique.

Porém a Câmara de Coimbra, num rasgo de engenho digno de um romance naturalista, propõe densificar a construção, aumentar pisos e reduzir exigências de estacionamento, porque, evidentemente, o problema do cidadão conimbricense nunca foi não ter casa, mas sim ter demasiados lugares onde estacionar a inexistente viatura que não consegue comprar após pagar a renda.

E assim, enquanto os regulamentos se multiplicam como personagens secundárias num folhetim oitocentista, o jovem casal, essa entidade quase mitológica em Coimbra, percorre a cidade em busca de abrigo. Entra em prédios antigos com cheiro a história e infiltrações, sobe escadas que rangem como consciências culpadas, e depara-se com senhorios que, com a solenidade de um magistrado, anunciam valores que fariam desmaiar um professor catedrático.

Mas não se pense que falta coerência ao processo. Pelo contrário, há pareceres, há conferências procedimentais, há distinções finíssimas entre o que cabe numa suspensão e o que exige revisão. Tudo isto cuidadosamente registado em atas que, pela sua extensão e solenidade, poderiam ser lidas em voz alta numa tertúlia literária, caso alguém tivesse casa suficientemente espaçosa para a acolher.

A presidente, Ana Abrunhosa, assegura que não há arbitrariedade, mas diagnóstico. E nisso, sejamos justos, tem razão e o diagnóstico está feito. Coimbra sofre de uma condição crónica, uma espécie de febre burocrática acompanhada de delírios de acessibilidade, cuja sintomatologia inclui planos, revisões, suspensões e, inevitavelmente: rendas impraticáveis.

No final, resta ao cidadão comum contemplar o Mondego, esse eterno espetador de decisões municipais, e perguntar, com a resignação de quem já leu demasiado Eça:
“não será mais fácil encontrar o amor verdadeiro, a honra perdida ou mesmo um político desinteressado… do que uma casa a preço decente em Coimbra?”

É só uma questão que vos coloco.

Maria Júlia