A SOBERDA DA MORTE: O RASTO DE SANGUE DE LUIZA DE JESUS

MANUELA52

 

Na semana passada, partilhei convosco o horror do "Mata Sete", mergulhando num dos episódios mais sangrentos da nossa história. Faço-o por dever de memória, na esperança de que, ao nomearmos o mal, possamos evitar que ele regresse. Mas hoje, impelida pelo facto de estar a ser produzida uma nova série televisiva que recupera estes factos e pela necessidade de não deixar cair no esquecimento as lições do passado, sinto que não posso manter a minha habitual calma. Temos de falar sobre Luiza de Jesus, a última mulher a conhecer o rigor do carrasco em Portugal e a serial killer mais prolífica da nossa história.

Mas quem era, afinal, esta mulher? Luiza não era uma personagem inventada nas fábulas, mas uma jovem real de Figueira de Lorvão, em Penacova. Solteira e de origens humildes, ganhava a vida como recoveira. Naquela época, ser recoveira significava ser os "pés" da região: percorria as aldeias com animais de carga, transportando mercadorias, encomendas e recados entre Penacova e a cidade de Coimbra. Esta profissão dava-lhe uma liberdade de movimentos perigosa; Luiza conhecia cada atalho, cada ribanceira e cada campo isolado. Era a máscara perfeita. Quem desconfiaria de uma mulher que viajava diariamente, habituada a carregar fardos e a lidar com o cansaço das estradas?

Contudo, sob esta aparência de trabalhadora incansável, escondia-se a soberba em estado puro. A soberba não é apenas orgulho; é a crença perigosa de que os outros são descartáveis perante a nossa vontade. Movida por uma sede de dinheiro que a miséria de meados do século XVIII apenas agudizava na sua mente, Luiza viu no sistema da Real Casa dos Expostos de Coimbra, a "Roda", um negócio macabro. O Estado pagava um subsídio de 600 réis e entregava um enxoval de linho a quem adotasse as crianças abandonadas. Para Luiza, na sua arrogância absoluta, aquelas vidas não tinham valor; eram apenas degraus para a sua pequena fortuna.

Aproveitando o facto de ser recoveira para justificar as suas idas constantes à cidade, adotava recém-nascidos para reclamar o dinheiro e o pano. Mas o destino das crianças estava selado mal atravessavam a porta. Com uma frieza mecânica, Luiza asfixiava as crianças, muitas vezes usando as próprias faixas do enxoval que as deveriam proteger. Para ocultar os crimes e poder regressar à Roda para "buscar mais lucro", desmembrava os corpos ou enterrava-os em covas rasas no caminho ou no seu próprio quintal. Foram trinta e três vidas ceifadas por mãos que deveriam cuidar. Luiza julgava-se intocável, superior à lei e à própria humanidade, até que o acaso desmoronou o seu império de sangue.

É perturbador pensar como a soberba e a ganância transformam uma jovem numa predadora de berço. Luiza não via rostos; via moedas. E se a sua execução em 1772 foi das mais bárbaras da nossa história, com as mãos amputadas e o corpo queimado, o verdadeiro horror é perceber que o mal que ela personificava ainda nos assombra sob outras formas.

Hoje, já não se mata pelo subsídio da Roda, mas o sacrifício dos inocentes continua, agora refinado e cruel. Assistimos a crimes contra crianças que nos gelam o sangue: desde o tráfico de órgãos, onde vidas são tratadas como peças sobresselentes, até à violência por pura maldade ou exploração. O Estado mudou as leis, mas a soberba humana continua a convencer muitos de que podem dispor da vida dos mais indefesos para proveito próprio.

A história de Luiza de Jesus, agora recontada no ecrã, é um grito que ainda ecoa nas pedras de Coimbra e nas serras de Penacova. Que esta crueza nos desperte. Não basta sermos compreensivas; é preciso estarmos vigilantes. A proteção dos mais indefesos é o único barómetro real da nossa civilização. Que nunca mais fiquemos em silêncio perante o choro interrompido de uma criança, pois o mal não morreu com Luiza, ele apenas aprendeu a esconder-se atrás de novas máscaras.

Manuela Jones