OPERAÇÃO PATINS LABORAIS

maria julia5

 

Passámos as últimas semanas a marchar e eu que não sou nada disso como diz a minha amiga Mara.

Mas ainda assim marchámos pelo 25 de Abril para celebrar a liberdade de marchar, e, como se fosse pouco, marchámos no 1º de Maio para celebrar o cansaço de tanto marchar.

De nada serviu marchar. Pois agora, o Governo decidiu que a solução para a produtividade nacional não passa pelas pernas, mas pelas rodas. O país está oficialmente mergulhado na Crise dos Patins. A Ministra do Trabalho, com a paciência de quem acha que está a explicar a um Golden Retriever que não pode comer o sofá, veio dizer que a CIP e a UGT não trouxeram "nada de novo".

Ou seja, o Governo, numa aparente mudança de paradigma, montou a pista de discoteca, ligou o globo de espelhos legislativo e ficou à espera que os parceiros sociais aparecessem com coreografias que lhes agradecem. Como ninguém trouxe passos novos, o Governo decidiu "- Pronto, se não sabem dançar, ponham os patins e deslizem para fora da sala."

O grande pomo da discórdia? A gente não sabe...talvez a origem do calçado.

O Governo, sempre focado na eficiência de custos (e talvez num contrato obscuro de logística), quer oferecer patins a todos os trabalhadores. É a mobilidade social levada à letra, se o emprego vai mal, deslizas para o próximo com estilo e rapidez. Contudo, os sindicatos, num raro momento de protecionismo podológico, batem o pé (o que é difícil de fazer com rodas).

"Patins fabricados na China, não!". Alegam que as rodas bloqueiam ao fim de dois quilómetros e que o material sintético causa alergias ao "sentimento de pertença". Querem patins de fabrico nacional, possivelmente em cortiça ou pele de Alcobaça, com rolamentos certificados pela concertação social.

A Ministra, entre um suspiro e um bocejo, já avisou que o processo negocial acabou. O "Pacote Laboral" vai agora para o Parlamento, o lugar onde as ideias vão para serem polidas até ficarem irreconhecíveis.

O plano é simples e baseia-se em negociações...em chinês para o povo. Aprovar a lei à revelia dos trabalhadores. Se eles não querem os patins chineses, vão recebê-los por correio prioritário, com instruções em mandarim e sem travões. Afinal, temos ou não "entradas alargadas"?

- Temos, sim senhor. O Governo abriu a porta de par em par, mas é para a saída. Com os patins nos pés, a precariedade torna-se muito mais fluida. Não há cá contratos sem termo; há apenas trajetórias retilíneas em direção ao horizonte do desemprego, mas com uma velocidade de ponta invejável. Preparem-se, portugueses. O futuro do trabalho não é o teletrabalho, nem a semana de quatro dias. É o Slalom Profissional.

Meus queridos e queridas, se ouvirem um ruído de rolamentos a aproximar-se da sua secretária, não se assuste, é apenas a flexibilidade laboral a passar por si a 20 km/h. Resta-nos saber se, no Parlamento, alguém terá a decência de sugerir joelheiras.

É que a queda, essa, já não é fabricada na China. É puramente nacional.

Maria Júlia