O Cidadão que Reclama, Não Participa e Ainda Se Ofende Quando a Democracia Falha

Há quem diga que a democracia está doente. Eu discordo: a democracia está é exausta. Exausta de carregar às costas o cidadão que passa a vida a reclamar, mas que não levanta um dedo para mudar o que quer que seja. O cidadão que exige milagres políticos com o mesmo empenho com que exige que o café venha quente: nenhum.
Este cidadão moderno — espécime abundante, ruidoso e surpreendentemente orgulhoso da própria inércia — acredita que ser cidadão é o equivalente cívico de ser adepto de futebol. Grita, insulta, manda bitaites, mas quando chega a hora de participar… “ah, isso não é comigo”. A democracia, coitada, que se aguente.
E depois admira-se que a sociedade esteja decadente, sem valores, sem rumo. Como se a decadência fosse obra de extraterrestres e não o resultado direto de milhões de pessoas que desistiram de pensar, de escolher, de exigir com inteligência. Reclamar é fácil. Participar é que dá trabalho — e trabalho, para este cidadão, é palavrão.
A militância cega por partidos, então, é o capítulo mais cómico desta tragédia. Há quem escolha fechar os olhos por opção, como quem escolhe desligar o Wi-Fi para não ver notificações. O problema é que, quando se é cego por gosto, tropeça-se sempre no mesmo erro — e ainda se culpa o chão.
E Coimbra? Coimbra não quer muito. Coimbra não pede luxo, não pede glória, não pede medalhas. Coimbra só quer — e merece — um balão de oxigénio. Uma lufada de ar fresco, um sopro de lucidez, um instante de vontade coletiva.
Mas o cidadão não deixa. O cidadão fura o balão antes de ele encher. Fura-o com indiferença, com preguiça, com aquela cegueira confortável de quem prefere não ver para não ter de agir.
É uma relação tóxica, mas sem romance. Coimbra pede ar; o cidadão oferece bafio. Coimbra pede visão; o cidadão entrega palas. Coimbra pede futuro; o cidadão responde com um encolher de ombros e um “isto está tudo na mesma”.
E depois, claro, reclama. Reclama da cidade, reclama da política, reclama da vida. Reclama tanto que até parece que participa. Mas não participa. Nem quer. Porque participar implica responsabilidade — e responsabilidade é um fardo demasiado pesado para quem prefere a leveza confortável da ignorância voluntária.
A verdade cruel é esta: uma sociedade não cai porque os políticos falham; cai porque os cidadãos desistem. E Coimbra, que só precisava de um balão de oxigénio, continua a sufocar — não por falta de ar, mas por excesso de gente que prefere respirar preguiça.
“A minha consciência é a minha única certeza.”
Fernando Pessoa
Otávio Ferreira
