MAIS DRAMÁTICO QUE OS MAIAS SÓ A CGD

Era outrora costume, entre as nações antigas e pouco civilizadas, que os príncipes mantivessem falcoeiros, bobos e alquimistas à custa do tesouro do reino. O progresso, essa entidade majestosa que nos trouxe locomotivas, eletricidade e regulamentos em papel timbrado, aperfeiçoou singularmente o método. Hoje sustentam-se administrações inteiras, conselhos superiores, reorganizações estratégicas e outras maravilhas da economia moderna, tudo mediante uma operação de extrema simplicidade, que é o de retirar primeiro ao contribuinte, para depois lhe explicar pedagogicamente que tudo foi feito no seu interesse.
Veja-se a Caixa Geral de Depósitos (CGD), essa respeitável senhora pública, concebida para servir o país, mas que adquiriu, com a idade e o conforto financeiro, certos hábitos de aristocrata cansada, onde fecha portas quando o povo as procura, despede empregados, reduz a sua presença pelos lugares mais remotos (Coimbra está nesta esteira) e, ao mesmo tempo, distribui compensações e indemnizações que fariam corar de inveja muitos duques arruinados do século passado.
O caso possui mesmo uma certa elegância matemática. Se um modesto funcionário abandonar o seu posto, recebe despedimento sem compensação, apertos de mão e votos de felicidade futura. Mas se um administrador superior deixar a cadeira, a cadeira parece adquirir imediatamente propriedades milagrosas e converte-se em centenas de milhares de euros. Há móveis extraordinários neste país. Sentamo-nos neles com pouco mais do que encher o depósito do carro e levantamo-nos milionários.
Ao mesmo tempo, o Estado, esse pai severo que recomenda constantemente prudência às famílias, aproxima-se da Caixa com a ternura de um tio rico e entrega-lhe capitais em montantes tão respeitáveis que deixam de ser números para se transformarem em paisagens. Já não são milhões; são cordilheiras de dinheiro. Anuncia-se solenemente uma injeção de milhares de milhões e, quando afinal se poupam duzentos milhões, espera-se ainda uma salva de palmas da população agradecida pela contenção heroica.
— Vede! — parece dizer-se ao cidadão. — Iriam ser dois mil e setecentos milhões, mas, num admirável exercício de austeridade e sacrifício, foram apenas dois mil e quinhentos!
E o cidadão, criatura ingrata e incapaz de apreciar os grandes gestos nacionais, persiste em interrogar-se sobre a singular natureza desta instituição pública.
Porque uma entidade concebida para o serviço público vai fechando balcões em sucessão quase litúrgica. Em certa época possuía centenas de agências; depois desaparecem algumas dezenas; mais tarde desaparecem outras; e a marcha continua. Há aldeias e localidades, como a de Coimbra, onde a Caixa parece surgir apenas na memória dos habitantes, como um parente distante que emigrara para o Brasil e de quem já só restam fotografias amareladas.
Mas a obra-prima desta modernidade surge depois, numa revelação quase artística: a Caixa, além de banco do Estado Português, resolveu igualmente abraçar vocações comerciais. O estabelecimento que vende dinheiro aos empreendedores descobriu também o prazer de vender relógios, ouro, tecnologia, artigos para a casa, vinhos e outras mercadorias.
A imaginação nacional é prodigiosa.
O comerciante paga impostos, suporta despesas, luta contra concorrência feroz e esforça-se por manter a sua pequena empresa. Entretanto, observa surgir diante de si um concorrente extraordinário, sob a forma de um banco público, alimentado por dinheiro público, amparado por estruturas públicas e sustentado pela mesma bolsa onde o Estado recolheu previamente os seus impostos.
É uma invenção admirável. Antigamente o Estado limitava-se a arrecadar; agora arrecada e comparece também ao balcão para disputar o cliente.
E talvez seja esta a suprema sofisticação do nosso século: o contribuinte entra na loja, compra o produto, financia o vendedor e paga a renda do edifício — tudo ao mesmo tempo, e sem sequer receber o desconto de cliente habitual.
Artur Queirós
29-05-2026
