CRÓNICA DE UMA PELE QUE FALA

Acordo todos os dias com uma certeza: antes de eu dizer “bom dia”, alguém já decidiu quem eu sou só por olhar para a minha pele. Há quem escolha outfits para chocar, eu só preciso de existir. Enquanto uns levam o cão a passear, eu levo as minhas tatuagens, que aparentemente são mais ameaçadoras do que um pitbull sem trela. E pronto, começa o circo diário dos olhares, como se eu fosse um documentário do National Geographic: Jovem Tatuada no Seu Habitat Natural, comportamento ainda em estudo.
As minhas tatuagens fazem cabeças virar, sobrancelhas subir e despertam aquele impulso de dar uma opinião não solicitada. Pescoço, mãos, braços e pernas se a minha pele fosse um livro, já ia na terceira edição, com críticas mistas e muita gente a comentar sem ter lido. Há quem veja arte, há quem veja rebeldia e há quem veja um possível pacto satânico assinado num beco às três da manhã.
Sou estudante em Coimbra e já trabalhei numa tasca na minha terrinha. Nunca houve um único dia sem pelo menos um olhar mais demorado. Uns curiosos, outros desconfiados, outros com aquele ar de quem está a tentar perceber se eu vim servir tremoços ou roubar a caixa registadora.
Ser uma jovem com tatuagens visíveis significa que antes de eu abrir a boca, já alguém abriu um julgamento. E sim, isso sente-se. Não como a agulha, essa foi escolha minha, mas como aquele comentário passivo-agressivo que ninguém pediu mas toda a gente acha necessário. É quase um desporto nacional, ver tatuagens e ativar automaticamente o modo “juiz do Dança com as Estrelas”.
Depois vêm os clássicos, o inevitável “ninguém te pediu para te tatuar”. Verdade, também ninguém pediu a tua opinião, e no entanto cá estamos, a exercê-la com entusiasmo. Ou o favorito nacional “tão bonita, para quê estragar o corpo?”, estragar o corpo é beber quatro litros de cerveja, comer um kebab às quatro da manhã e acreditar que no dia seguinte vou acordar leve que nem uma pena. Fazer tatuagens é, no máximo, uma decisão estética e, por norma, não vem com uma ressaca.
Alguns psicólogos dizem que tatuar o corpo pode estar ligado à identidade, à memória ou à superação de fases difíceis, outras vezes é só gosto. Fácil. Nem tudo precisa de uma tese de mestrado para existir, às vezes é só porque sim, o que já justificou decisões bem piores.
Na prática, o preconceito ainda existe e, curiosamente, começa muitas vezes em casa. Felizmente nunca foi o meu caso. A minha família é tão tranquila com tatuagens que às vezes parece que vivo numa comunidade artística em Berlim. Nunca ouvi um “mas era preciso?”. No máximo, um “mostra lá a nova para ver se ficou bonita”. O drama ficou reservado aos desconhecidos que acham que cada tatuagem é um trauma mal resolvido ou um ritual satânico de domingo.
Durante muito tempo as tatuagens foram associadas à marginalidade. Hoje a realidade é outra, mas a ideia ainda sobrevive em alguns olhares. Há quem associe aparência a competência, como se um braço tatuado tivesse impacto direto na capacidade de trabalhar, como se a tinta, ao entrar na pele, fosse direta para o cérebro e interferisse com o raciocínio. Se assim fosse, metade da criatividade mundial estava em risco.
Mas também há quem simplesmente respeite. Não precisa de entender tudo para aceitar, e isso, em 2026, já devia ser o mínimo da convivência humana. Nem toda a gente tem de gostar, mas também não é preciso fazer cara de quem acabou de ver um crime sempre que passa alguém tatuado.
Importa dizer que nem todas as tatuagens são obras-primas. Algumas são decisões questionáveis, outras são memórias que nos continuam a torturar, outras são fases que já passaram mas continuam ali, firmes. Outras foram feitas com mais entusiasmo do que planeamento, mas isso não é exclusivo da pele, é da vida. A diferença é que algumas escolhas ficam visíveis e outras ficam só entre nós, mas todas fazem parte da nossa história.
No fim do dia, as tatuagens não fazem de mim melhor nem pior. Tornam-me, talvez, mais visível, com a minha própria história marcada no corpo. E, pelos vistos, isso ainda incomoda muita gente. Sim, há portas que se podem fechar, mas convém perguntar: quero mesmo entrar num sítio onde um desenho na pele pesa mais do que aquilo que eu sei fazer?
E sim, talvez daqui a uns anos eu olhe para uma ou outra tatuagem e pense “quem me dera que isto viesse com prazo de validade”. Mas arrependimentos toda a gente tem. Uns tatuam o ex, outros casam com ele, e esse, às vezes, é bem mais difícil de remover do que tinta. Há quem esconda fases más da vida em álbuns privados do Facebook, pelo menos eu deixo as minhas à mostra, que sempre é melhor do que fingir que não tive más ideias em 2022.
Não quero que toda a gente goste de tatuagens. Também odeio crocs e não ando por aí a fazer intervenções públicas sobre isso. Não peço aplausos nem aprovação em assembleia geral. O que eu peço é simples, debate, escuta, reflexão e respeito mútuo. Porque as minhas tatuagens, por muito que brilhem ao sol, não são uma ofensa para ninguém. Se forem, prometo que não foi de propósito, ao contrário do preconceito, que esse sim é sempre muito intencional.
E se há algo que aprendi é que a tatuagem não define quem eu sou, mas o preconceito diz muito sobre quem o pratica. A tinta marca a pele, mas o julgamento marca o carácter e, ao contrário do laser, ainda não inventaram tecnologia capaz de apagar isso. No máximo, há terapia, mas isso já é outra conversa.
Isis
15/05/2026
